Juventude em foco

Sínodo sobre os jovens faz pensar sobre a espiritualidade da juventude atual.

de Ronaldo Lobo
Juventude_Sínodo_Jovens

Encontro de Coordenadores Estaduais e Diocesanos da Infância e Adolescência Missionária (IAM) e Juventude Missionária do Nordeste.

Os bispos que se reuniram no mês de outubro em Roma, concluíram o Sínodo sobre os jovens. A abertura do documento do ‘Sínodo’ já dizia que cuidar dos jovens ‘não é um trabalho opcional para a Igreja, mas uma parte substancial de sua vocação e de sua missão na história’. O texto leva também em consideração as maneiras que os líderes da Igreja podem ajudar a nova geração a lidar com os desafios do século XXI! Logo, logo, teremos as conclusões deste Sínodo ajudando a toda a Igreja e a juventude em geral. Como será que os jovens encaram a realidade hoje? Sabemos que o Espírito Santo sopra em nós para seguir os passos de Jesus ressuscitado. Com certeza, Ele é que conduz os passos da juventude de hoje. Ele transforma a juventude para os novos modos de se fazer cristão. Quero refletir sobre a espiritualidade da juventude.

Bom Mestre o que devo fazer... (Mc 10, 17-31)
Muitas vezes, o personagem deste Evangelho é chamado de jovem rico! Jesus depois de deixar a casa (Mc 10, 10), continua o seu caminho em direção a Jerusalém. No meio ele atravessará a Judeia, a Transjordânia, indo em direção de Jericó. Ele faz um percurso geográfico que constitui a penúltima etapa da sua viagem para Jerusalém. No percurso encontramos um jovem indagando a Jesus ‘o que devo fazer para alcançar a vida eterna?’ A pergunta em si, para início da conversa, é profunda e interessante. Embora o Evangelho tenha seu ponto principal na prática de justiça e a partilha dos bens como norma principal da vida cristã, o texto nos apresenta muitas coisas.
Vale a pena lê-lo na ótica da juventude de hoje e tudo o que o Sínodo  oferece a ela. ‘Bom mestre, o que devo fazer para entrar na vida eterna?’ é a pergunta que a juventude faz ainda hoje. Noutras palavras ‘Que espiritualidade devo seguir? ‘A espiritualidade é uma fonte inspirada de sonhos, de grandes ideais, de grandes valores. O jovem é jovem porque sonha, porque quer um mundo diferente’ diz Leonardo Boff. Também a Igreja, acolhendo a inquieta pergunta da juventude, deve dar uma resposta convincente. Deve acolher com coração misericordioso a partilha da vida juvenil dentro das suas esgotadas estruturas. Faz tempo que padre Zezinho cantava '... És o Senhor da messe, ouve esta nossa prece, põe sangue novo nas veias da tua Igreja!'

Resposta de Jesus – o Reino
Jesus é o único capaz de nos dar uma resposta, porque é o único que nos pode garantir a vida eterna. Por isso também é o único que consegue mostrar o sentido da vida presente e dar-lhe um conteúdo de plenitude. O caminho que Jesus faz com os discípulos, em direção a Jerusalém, é também um caminho espiritual. Jesus usa este percurso para dar a sua catequese aos discípulos e ensina sobre as exigências do Reino. Relembra as condições para se integrar nesta comunidade, embora o Reino seja gratuito, carece de um esforço permanente. Portanto, importante a primeira pergunta do jovem e, mais ainda a indagação de Jesus ‘por que me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser só um: Deus’, dizia o papa Bento refletindo este Evangelho, o jovem ‘teve uma percepção de Deus em Jesus Cristo’. Essa é a realidade dos nossos jovens, muitas vezes, o que eles veem em Jesus não veem na sua Igreja.

Juventude ontem e hoje
Teve uma época em que a Igreja do Brasil se orgulhava dos seus jovens. Pode ser que a conjuntura daquela época proporcionou tal oportunidade. É sabido que a opção preferencial pelos jovens, por parte da Igreja Católica da América Latina, vem da década de 70 do século passado. Uma opção que, por vezes, só ficou no discurso, outras vezes, produziu grandes lideranças juvenis, mas foi e ainda é uma prioridade. Vimos com tristeza o desaparecimento dos grupos juvenis ao passar do tempo. Os tempos mudaram e com ele os jovens também. Tivemos a geração Y, ou seja, uma geração de jovens entre 1985 e 1995. Aqueles que permaneceram, são as lideranças na Igreja de hoje.
Os mais novos, que nasceram depois dessa data, adolescentes e jovens do início deste milênio, da era da informática são chamados de millennials. São jovens que vivem num tempo de intensificação do campo de informações e numa cultura marcadamente midiática. Engolidos por uma economia de propaganda consumista e individualista. Não estão tão ligados com a Igreja e o discurso da Igreja não os atrai. Com respeito à religião, vivem uma situação peculiar. Eles têm certa desafeição com a Igreja, porém intensa a sua sede de espiritualidade. Eles são considerados a geração jovem mais influente que já existiu e é neles que a Igreja está de olho! (O termo millennial/s sempre foi utilizado com o significado de ‘milenar’, ou seja, aquilo que se refere ou pertence a um determinado milênio).

O que a Igreja pode oferecer?
A juventude tem sido a principal vítima desta realidade. É preciso que a Igreja e toda a sociedade se encantem ou se re-encantem pela juventude. Não se trata de encher a Igreja, mas de mostrar ao mundo que a Igreja não perdeu a juventude, mas afirmar que a Igreja está interessada e se preocupa com a juventude. A preocupação não deve ser pela perda, mas da compaixão, da acolhida e de uma capacidade de acolher a novidade que a juventude traz. ‘Enquanto o clero for encastelado, a juventude continuará desabrigada e violentada também pela instituição. A falta de espaço, compreensão e acompanhamento, é sim uma soma da Igreja na correlação de forças do capital, do patriarcado e do racismo. Francisco instiga, provoca a romper com essa lógica...’ escreve Wagner Fernandes de Azevedo. Em momento algum podemos esquecer de que o futuro da Igreja Católica está com os jovens e as crianças. Se a Igreja não pode atrair e manter os jovens, ela não tem futuro!
Desde o início do seu pontificado, o papa Francisco tem mostrado um interesse à parte pelos jovens. Já vimos isso na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em 2013. Emerson Sbardelotti expressa bem esta realidade: ‘há um novo papa na Igreja e ele quer que a juventude saia da Igreja e vá para o mundo, que fique toda enlameada por ter ido ao encontro de quem pede socorro, de quem pede ajuda, de quem tenha o cheiro das ovelhas, que não deixe a profecia cair, que faça a opção pelos pobres, que faça a Igreja ser novamente dos pobres! Esta verdadeira 'primavera eclesial' nos desafia a vivermos uma fé encarnada e consequente, em solidariedade com os pobres e excluídos da sociedade’. Segundo o Evangelho, a incapacidade do jovem rico para assumir a lógica do dom, da partilha, do amor, da entrega, tornam-no inapto para o Reino. Nesta altura da vida falemos aos jovens e à Igreja, de que o Reino é incompatível com o egoísmo e com o fechamento em si próprio. Aconteça o que acontecer, as novas juventudes devem estar conscientes de que a opção pelo Reino e pelos seus valores lhes garantirá uma vida cheia e feliz nesta terra e, no mundo futuro, a vida eterna. Apostemos nisso!

Ronaldo Lobo, SVD, é superior dos Verbitas, em Curitiba, PR.

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