Jeffrey Sachs, um economista incentivador da Laudato Si'

Queremos que nossos representantes representem o público, o bem comum e as futuras gerações’.

Por Christopher White

"As pessoas deveriam refletir sobre seus múltiplos papéis em nossos lares, como consumidores e produtores, dentro dos múltiplos setores da sociedade, a fim de responder a essa pergunta pensando cuidadosamente o que de fato podem fazer, o que o Papa Francisco nos convoca a fazer, que é atuar em prol do bem comum", afirma o economista Jeffrey Sachs, em entrevista a Christopher White, publicada por Crux, 30-06-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

jeffreysachs1Jeffrey Sachs - um dos economistas mais conhecidos do mundo - também é, sem dúvida, um dos maiores incentivadores do Papa Francisco, e acredita que ele seja o líder moral mais importante do mundo atualmente.

Sachs, que não é católico, assessora o Vaticano em documentos papais há mais de 25 anos. Apesar de ter notáveis ​​discordâncias com a Igreja em questões como contracepção e controle populacional, ele aceitou o chamado dos três últimos papas para que pessoas de “boa vontade” dialoguem com a Igreja e busquem entendimento em comum.

Através de seu trabalho com a Academia Pontifícia de Ciências, Sachs ajudou a elaborar a Laudato Si’, a encíclica de Francisco lançada em 2015 que pede maior cuidado com a criação. Hoje ele é um dos principais defensores do documento no cenário global.

Sachs esteve recentemente em Roma para as reuniões da Academia Pontifícia e conversou com Crux sobre o terceiro aniversário do lançamento da encíclica.

Eis a entrevista.

Você foi consultor de uma série de documentos papais de São João Paulo II e de Francisco. Como o processo para se chegar a Laudato Si’ foi diferente das experiências anteriores?

Cada vez que eu participo tem sido um processo sério e muito impressionante. Na Centesimus Annus (encíclica de 1991, sobre a doutrina social católica) foram chamados muitos economistas do mundo todo para dar opiniões e para uma longa discussão com o Papa João Paulo II.

No caso de Laudato Si', houve um período absolutamente notável de preparação, com os principais cientistas, climatologistas e engenheiros do mundo, além de muitas outras comunidades de engajamento - políticos, juízes, prefeitos e entre outros, para que esta questão pudesse ser explorada com profundidade.

Eu considero a Pontifícia Academia das Ciências como uma instituição única no mundo porque é o mais alto nível de engajamento científico combinado com a fé da Igreja.

Segundo alguns relatos, Laudato Si’ é o documento papal mais citado na história em apenas três anos. Como você explica isso?

É magnífico. De tirar o fôlego. Costumo dizer que eu posso passar ele para alunos do primeiro ano da graduação em ciências da terra, biologia, teologia, diplomacia ou ciências políticas. É tão convincentemente holística que pode ser lida de todos esses pontos de vista cruciais, pois inspira e fala de maneira muito direta às nossas necessidades urgentes. A linguagem também é muito clara, e acho que traz a resposta emocional completa a todo o conhecimento que está profundamente arraigado no documento.

O Papa Francisco se reuniu recentemente com importantes executivos da indústria petrolífera e pediu a eles que reduzissem o uso de combustíveis fósseis. Você acredita que eles vão levar isso a sério?

Acho que foi um encontro muito significativo e tive o privilégio de fazer parte. Eram executivos da indústria petrolífera que aceitaram o básico sobre a mudança climática. Eles sabem que isso é real e que eles têm uma importante medida de responsabilidade.

No entanto, não acho que a indústria esteja adotando, como grupo, a clareza decisiva de ação - a força e a urgência da ação necessária à luz da ciência. O Papa Francisco falou com eles de forma extremamente direta e disse que eles tinham responsabilidade sobre o Acordo Climático de Paris. Muito disso envolve deixar o petróleo e o gás sob o solo, pois se tentarmos tomar todo o petróleo e o gás que nós economicamente e lucrativamente podemos, vamos destruir o planeta. O Papa Francisco foi muito direto, e sei que em tais situações todos o ouvem com muita atenção, então tenho certeza de que isso tem um grande efeito.

Qual foi sua experiência com os americanos nos últimos três anos, desde o lançamento da Encíclica - tanto em termos de aceitação quanto de resistência ao documento?

Eu já estive em muitas reuniões universitárias desde que a Laudato Si’ foi lançada. Eu amo universidades e acredito que elas são centros de aprendizagem, conhecimento, reflexão e contemplação, além de serem únicas em nossa sociedade. A Laudato Si’ foi recebida por acadêmicos dos Estados Unidos e em universidades que realizam poderosas reuniões, o que envolveu faculdades de diferentes disciplinas, alunos e o público.

Por outro lado, em algum momento você vê partes da comunidade católica americana que são resistentes e até mesmo entendem mal o processo porque dizem: "Quem é o Papa para falar sobre essas questões? Ele não é um climatologista”. Eles parecem não estar cientes do compromisso da Igreja em obter o melhor conhecimento e a mais rigorosa ciência no mundo como preparação para um documento desse. Parecem simplesmente não estarem cientes de como esse processo realmente funciona e como a Igreja está comprometida com evidências científicas e com o rigor, bem como com a moral, a ética, e os ensinamentos sociais e teológicos.

Definitivamente, há partes da América católica conservadora que têm resistido a isso, mas eu acho que eles realmente entenderam mal quando dizem que "o Papa não deveria entrar neste assunto". O Papa está nisso, é claro, porque está no núcleo da nossa necessidade moral, mas ele não faz isso de superficialmente, e sim com base no exame mais cuidadoso e por vários anos sobre este problema.

Alguns de seus críticos reclamam que, por estar em conflito com a Igreja em certos assuntos, você não deve se envolver com documentos da Igreja. Qual é a sua resposta a eles e, neste processo de envolvimento, existem áreas que você passou a simpatizar mais com o ensino da Igreja?

Adoro o ensinamento social da Igreja e amo a liderança que a Igreja demonstra com boa vontade para com a humanidade. O Papa Francisco disse repetidamente que suas encíclicas são um chamado para toda a humanidade, e elas me tocam profundamente. Eu acho que o Papa Francisco é nosso maior líder moral no mundo.

Quando tive a honra de trabalhar com o Papa João Paulo II, encontrei similarmente o poder desta Igreja para promover o bem comum de maneira que nenhuma outra instituição pode. Eu vim para cá em 1999, quando o Papa João Paulo II estava propondo o Ano do Jubileu e o chamado alívio da dívida. Sou uma das autoridades do mundo em crises de dívida soberana, e o que o Papa João Paulo II disse naquela ocasião não foi apenas preciso, o que eu esperava, mas profundamente importante em comover o Congresso dos Estados Unidos e em comover instituições internacionais.

Eu vim aqui em 1991, próximo da Centesimus Annus, e eu era então o principal conselheiro econômico externo da Polônia. Obviamente, o Papa João Paulo II estava profundamente interessado em me interrogar de perto sobre as reformas econômicas da Polônia, nas quais eu estava muito envolvido. Então, quando a Igreja chama, nós ouvimos. Nós também respondemos a profunda ética desta Igreja, e os nossos ouvidos, nossas mentes e nossos corações estão abertos.

Muito da Laudato Si' implica em convocar amplas mudanças estruturais em nosso mundo. Como você reagiria ao católico comum que diz: "Mostre-me uma maneira tangível que eu possa usar na minha própria vida”?

Espero que suas paróquias tenham painéis solares nos seus telhados, e espero que eles estejam dialogando com os seus congressistas que muitas vezes recebem contribuições de companhias petrolíferas e, portanto, não falam da urgência nas alterações climáticas. Que digam aos políticos 'nós somos seu verdadeiro eleitorado - não a companhia petrolífera. Você deve zelar por nós, ouvir o chamado do Papa Francisco e concordar com ele. Queremos que nossos representantes representem o público, o bem comum e as futuras gerações’.

Espero da mesma forma que, dentro da Igreja, os católicos possam dizer aos seus bispos que são grandes vozes em nossa nação, a seguirem o Papa Francisco em seu plano em relação ao nosso lar comum. Cada pessoa tem um papel a desempenhar. Podem ser pessoas de negócios, estudantes, acadêmicos, líderes comunitários ou políticos - todos têm um papel a desempenhar para contribuir com o bem comum. Laudato si’ é um guia magnífico e inspirador para nós.

Acho que as pessoas deveriam refletir sobre seus múltiplos papéis em nossos lares, como consumidores e produtores, dentro dos múltiplos setores da sociedade, a fim de responder a essa pergunta pensando cuidadosamente o que de fato podem fazer, o que o Papa Francisco nos convoca a fazer, que é atuar em prol do bem comum.

Fontes: Crux/IHU On Line

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