Com a mochila cheia

Padre Giuseppe Frizzi fala sobre seu trabalho em Moçambique e o milagre de Ir. Irene Stefani.

Por Paulo Mzé

Padre Giuseppe Frizzi é missionário da Consolata italiano. Nasceu em Suisio, Bergamo, aos 14 de maio de 1943. Entrou no Instituto Missões Consolata em 27 de setembro de 1954, emitiu a primeira profissão religiosa aos 2 de outubro de 1963 e foi ordenado sacerdote aos 20 de dezembro de 1969. Depois de ter obtido o doutorado em Exegese Bíblica em Munster in Westfalen, Alemanha, em 1972 foi designado a trabalhar em Moçambique, na diocese de Lichinga, onde chegou aos 6 de junho de 1975, depois de algum tempo em Portugal. Trabalhou nas missões de Mitúcue (1975-1979), Cuamba (1979-1989) e Maúa. Juntamente com o trabalho pastoral, dedica-se ao estudo da língua e cultura Macua-Xirima e criou o Centro de Investigação Macua-Xirima. Publicou o Dicionário Xirima-Português e Português-Xirima. Gramática e Alfabetização (2005) e a antologia bilíngue da biosofia e biosfera Macua-Xirima – Murima ni Ewani Exirima. Biosofia e Biosfera Xirima (2008).
No setor pastoral, traduziu em Macua o Catecismo dos Adultos, o Catecismo das Crianças e a Bíblia Exirima (2002). Em 3 de dezembro de 2009, a Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma conferiu-lhe o doutorado honoris causa. Padre Frizzi estava presente na ocasião do milagre de Ir. Irene Stefani (1989), que multiplicou a água e foi o causador de sua beatificação. No Brasil, a convite das Missionárias da Consolata para falar sobre Ir. Irene, deu entrevista a Missões.

A relação entre Brasil e Moçambique é histórica. A presença dos missionários da Consolata neste país está completando 90 anos em 2016. Como o senhor avalia a situação político-econômica de Moçambique?
Em nível econômico, o país está melhorando em muitos setores, desde o fim da guerra pela independência (1992). Os meios de transporte (antes apenas algumas pessoas possuíam bicicleta) estão mais acessíveis. Além do aumento de número de bicicletas, já existem motos e carros circulando. Também os meios de comunicação como celulares e computadores são vistos. As casas não são mais de pau a pique, já existem de alvenaria, com luz elétrica. Em Maúa agora só falta um banco, já temos canalização de água e distribuidora de combustível. Notamos avanços na parte econômica. Na parte política, em parte houve melhoria, em parte piora... Existem três grandes partidos, o que fez aumentar a consciência crítica. A parte pior refere-se ao clima de que haverá nova guerra civil, por existir um governo de um só partido e que recusa a democracia. Dois dos três partidos estão cronicamente doentes e incapazes de ler e entender o momento presente, sobretudo, pensar em criar um futuro mais democrático.

Em Moçambique, o senhor está desenvolvendo o seu apostolado missionário na missão de Maúa, situada na região norte daquele país. Poderia descrever um pouco do seu trabalho?
Os 90 anos da presença dos missionários e das missionárias é uma verdadeira epopeia consolatina, inegável seja do ponto de vista quantitativo ou qualitativo: inúmeras comunidades, paróquias, centros catequéticos, dioceses e até bispos. A semente consolatina caiu em bom terreno e está frutificanto além de 60%. Tomando positiva e seriamente conta do pluralismo intercultural e inter-religioso, conjugou-se sincronicamente não só o semear imediato do kerigma (primeiro anúncio), mas também o ceifar prévio da caminhada que Deus fez com o povo evangelizado, evitando seguir exclusivamente o paradigma colonial do jiboia tudo-absorvente, mas preferindo o paradigma empático do cagado que procede lentamente, assumindo a cor/cultura/religiosidade/teologia do ambiente que pisa. Em outras palavras, foi e é ainda hoje uma caminhada missionária não só de idas, mas, também de regressos com mochila cheia. Portanto, tendo descoberto e apreciado toda a novidade cultural e religiosa do povo que se quer evangelizar, procura-se em seguida, enxertá-la e metabolizá-la no contexto cristão. Por exemplo, tendo chegado à descoberta que na religiosidade e teologia da biosofia e biosfera xirima, o religioso, o teológico não é masculino, paterno, patriarcal, mas, feminino, materno, matriarcal, não é solar, mas lunar, não é diurno, mas noturno, procurou-se fazer passos de continuidade na descontinuidde, em outras palavras de troca de dons interculturais e inter-religiosos, evitando o perigo da “teomaquia = guerra contra Deus” denunciado por Gamaliel (At 4, 39): o perigo de se tornar a evangelização uma guerra contra Deus (o seu caminho prévio) e não em favor do seu reino histórico salvífico que se amplifica e dilata na medida em que aceita outras culturas e outras biosofias e biosferas antropológicas. Evidentemente isto pressupõe que se dê atenção crônica, diria, primazia quase exclusiva à língua do povo que se quer evangelizar, ao seu estudo não só lexical, mas também das coordenadas portantes à sua biosofia e biosfera.

O senhor tem visitado o Brasil a trabalho sempre que a situação permite. Desta vez o senhor veio para orientar o encontro dos missionários, missionárias e leigos da Consolata, que tratou da Bem-aventurada Irene Stefani e o milagre da água. O que o senhor gostaria de nos relatar sobre a Bem-aventurada? Tendo em conta a realidade missionária de hoje, o que o senhor acha que ela tem a nos dizer?
Irmã Irene nos atendeu no momento certo. Não pedi a intercessão do Allamano, nem da Consolata, mas pedi a ajuda de Irmã Irene. Não só eu, mas os catequistas presentes também pediram. E ela prontamente nos atendeu. Ela entrou na cultura Macúa, que como falei anteriormente, é matriarcal. Ela ganhou mais um vocativo na cultura Macúa, a mãe previdente porque realmente foi mãe para todos os que se encontravam em aflição pela guerra. Não morreu ninguém no ataque. Isso já é considerado um milagre.

Uma definição do que é ser missionário hoje?
O missionário é um discípulo de Jesus que vai com a mochila vazia e regressa com a mochila cheia.

Acha que conseguimos colocar em prática a Igreja em saída que o papa Francisco tanto defende?
Como missionários Ad Gentes éramos e somos ainda condenados a sair e a anunciar nas periferias tanto apregoadas pelo papa Francisco. A periferia Ad Gentes é a periferia das periferias, uma periferia, porém, que o papa me parece diluir no Intergentes e, sobretudo, esquece que se por um lado a periferia Ad Gentes tem muito a receber da Igreja (kerigma, caritas), por outro tem muito a dar à Igreja: agora esta Igreja aceita os dons desta periferia? Este periferia não é destinatária do anúncio e da caridade eclesial, é também sujeito propositivo e constitutivo do tecido eclesial.

* Paulo Mzé, imc, é diretor da revista Missões.
(CC BY 3.0 BR)

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