Mudamos se desejamos

Maria Regina Canhos Vicentin *

Outro dia, caminhava em direção ao trabalho quando vi de relance alguém que havia coordenado um grupo do qual fiz parte na minha puberdade. Pessoa distinta que pregava a Palavra de forma bonita, mas que com o passar dos anos foi se afastando da Igreja. Também, na mesma semana, ouvi relatos sobre alguém que admirei na juventude, e que mudou completamente de comportamento ao longo da vida, assumindo atitudes diversas daquelas que me inspiraram fascínio e respeito. Tomei conhecimento ainda de alguns fatos praticados por pessoas que tinha em alto conceito, e que me decepcionaram, embora não tenham feito, diga-se de passagem, nada de errado ou grave.

Percebi, assim, que quanto maior a expectativa que temos das pessoas, mais fácil fica nos frustrarmos diante das constatações que a vida traz. Num primeiro momento, tendemos a descrer do ser humano, pois muito esperávamos. Um pouco de reflexão, no entanto, mostra como somos frágeis e vulneráveis em nossas decisões, opções de vida, escolhas. Tantas possibilidades à nossa volta nos levam à indecisão, principalmente se desejamos experimentar tudo ou optar pelo que aparenta ser mais vantajoso. Estou para afirmar que o "melhor" não existe. Ao menos, não na concepção que temos de melhor, pois o "meu melhor" pode diferir do "seu melhor". As decepções serão muitas, já que somos imperfeitos e falíveis. É inevitável.

Dói menos quando a gente compreende que o erro do outro nos faculta a possibilidade de errar também. Faculta, compreendeu? Isso não quer dizer que devamos fazer igual. Apenas gera um pouco de conforto ao nos depararmos com a nossa imperfeição, que muito nos serve para desculpar erros e deslizes (cometidos, normalmente, pelo próprio prazer de cometê-los). A santidade, às vezes, parece ser desagradável. Chateia, incomoda, humilha quem não consegue atingir o ideal proposto. É por isso que muitos abandonam as igrejas. Fica difícil viver a santidade na Terra. Além disso, os templos estão repletos de pessoas imperfeitas, e isso decepciona, não é mesmo?

Se decepciona por um lado, conforta pelo outro. Somos todos sujeitos a falhas. Vamos nos decepcionar com os outros, sem dúvida, e certamente muitos se decepcionarão conosco. Mas, a vida é assim. Hoje a gente cai; amanhã a gente levanta, ou vice-versa, pois o aprendizado implica em muitos exercícios e repetições. Podemos mudar sempre. É uma faculdade que o Senhor nos deu. Mas, somente mudamos se desejamos. Há os bons que se tornam mesquinhos, e os mesquinhos que se tornam bons. Há os crentes que se tornam descrentes, e os descrentes que passam a crer. Há os humildes que se tornam vaidosos, e os vaidosos que ficam humildes. Tudo depende da forma como assimilamos as lições da vida. Não sei o que o futuro nos reserva, mas confio que será o "melhor", ainda que o melhor não seja exatamente como a gente imagina.

* Maria Regina Canhos Vicentin (e.mail: contato@mariaregina.com.br) é escritora.
Acesse e divulgue o site da autora: www.mariaregina.com.br

Fonte: www.mariaregina.com.br

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