Apreensão e alegria Kaiowá Guarani no Paraguai

Egon Heck *

Rosalino não consegue conter a emoção. Chora. A seu lado Rodolfo expressa um longo sorriso no rosto. Elpidio se agita alegremente. Palmas de todo o grupo de mais de quarenta Kaiowá Guarani presentes no III Encontro continental Guarani, em Assunção, Paraguai. O advogado olha atentamente a decisão do juiz desembargador, do TRF, 3ª região em São Paulo. "É isso mesmo", afirma emocionado. Acaba de ser anunciada a revogação do despejo da comunidade Guarani do Ypo'i. Confere mais uma vez, atentamente. A comunidade tem mais um tempo para respirar.

Há pouco na sessão em que foram debatidos os principais problemas que hoje as comunidades Guarani encontram, nos quatro países , com relação às suas terras e territórios, um Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul, havia colocado para a plenária a notícia do despejo anunciada para o dia de amanhã. Houve reações acaloradamente solidárias manifestadas por vários participantes. O povo Guarani não vai mais admitir que suas comunidades sejam vítimas de ações de violência e desrespeito a seus direitos fundamentais, garantidos nas leis e acordos nacionais e internacionais. Em função disso foi aprovado a elaboração de um documento ao governo e judiciário brasileiro exigindo atitude respeito ao direito dos Guarani às suas terras e a suspensão de qualquer ação que viole esse direito.

Enquanto o documento estava sendo elaborado veio a boa notícia da suspensão da reintegração de posse. "O documento continua sendo importante, enquanto manifestação dos mais de 300 mil Guarani ali representados, pois a ação judicial continuará, até a decisão final sobre o mérito da ação", informa o advogado. Porém era visível a sensação de alivio.

Na carta de solidariedade dos Guarani do continente à comunidade do Ypo'i, que está sendo divulgada hoje, fica expressa a decisão dos Guarani de lutarem unidos pelas terras e territórios de seus povos nos diversos países:"Nós, povos indígenas Guarani de Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai presentes no III Encuentro Continental del Pueblo Guarani, realizado no Seminário Metropolitano de Assunção, PY, vimos pelo presente documento manifestar nossa dor e preocupação sobre o iminente despejo de nossos parentes Guarani do tekohá Y'poí, município de Paranhos, Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, que há muito tempo estão sofrendo com ameaças e assassinatos de suas lideranças que estão lutando por um pequeno pedaço de terra para poderem sobreviver com dignidade e sustentabilidade... Acreditamos muito na solidariedade e apoio de todos e todas pessoas de bem para com os povos Kaiowá e Guarani de Mato Grosso do Sul que vem historicamente sofrendo com o desrespeito aos seus direitos e que amarguram na miséria e violência, mas que somente querem ter uma vida digna com terra, alimento e paz".

A terra indígena Y'poí representa uma das mais difíceis lutas de nosso povo e já perdemos dois parentes, os professores indígenas Genivaldo Vera e Rolindo Vera, assassinados por pistoleiros contratados por fazendeiros de Paranhos-MS e que provavelmente podem ter fugido para o território paraguaio, pois até hoje não foram localizados no território brasileiro.

Deste modo, a comunidade de Y´poí também espera poder contar com o Governo Paraguaio nas buscas do corpo de Rolindo Vera, que continua desaparecido e que pode estar em território paraguaio na fronteira com o Brasil.

Diante desse relato, gostaríamos muito que o Estado Brasileiro fizesse alguma intervenção e passem a olhar para o povo Kaiowá e Guarani de Mato Grosso do Sul e interrompa o despejo de nossos parentes do tekohá Y'poí.

Acreditamos muito na solidariedade e apoio de todos e todas pessoas de bem para com os povos Kaiowá e Guarani de Mato Grosso do Sul que vem historicamente sofrendo com o desrespeito aos seus direitos e que amarguram na miséria e violência, mas que somente querem ter uma vida digna com terra, alimento e paz.

Nós povos Guarani de todo Continente jamais iremos abandonar a luta pelo reconhecimento de nossos direitos históricos e repudiamos todas as ações genocidas, contrarias à dignidade da pessoa humana, como vem ocorrendo incessantemente no estado de Mato Grosso do Sul.

* Egon Heck, Pavo Guarani, Grande Povo, Aldeia de Cerrito, Eldorado, MS.

Fonte: Cimi MS

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