Diversidade e diálogo: Entrevista com Faustino Teixeira

Jaime C. Patias *

"As religiões deveriam transparecer com sinais vitais na história o mistério de um Deus de misericórdia".

"A diversidade é um dom que se insere na dinâmica misteriosa dos desígnios divinos. O pluralismo de princípio significa reconhecer a diversidade como um valor, como uma riqueza fundamental, como parte do mistério de Deus que nós não conseguimos compreender na sua totalidade", afirmou o professor Faustino Teixeira, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais (UFJF), em entrevista à revista Missões durante curso sobre Ecumenismo, promovido pelo Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização Popular - CESEP, no mês de julho, em São Paulo. Faustino é pós-doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG), Itália, doutor em Teologia pela mesma universidade, mestre em Teologia, pela PUC-RJ e graduado em Filosofia e em Ciências da Religião pela UFJF. É autor de vários livros, dentre os quais "Nas teias da delicadeza" (Paulinas, 2006) e "As religiões no Brasil: continuidades e rupturas" (Vozes, 2006), este em parceria com Renata Menezes.

Faustino Teixeira nasceu em Juiz de Fora, numa família numerosa e muito religiosa. Seus pais tiveram 15 filhos, dez homens e cinco mulheres; ele é o oitavo filho e atribui à influência da família e dos amigos a sua busca por valores universais. O sonho do pesquisador é que exista um maior entendimento e respeito à diversidade de culturas e de religiões.

Para se dispor ao diálogo inter-religioso e ecumênico, que atitudes a pessoa deveria ter?
Uma disposição fundamental é a humildade, virtude indispensável para viver uma perspectiva dialogal em profundidade. Ter a consciência da contingência, de que não somos permanentes, mas que estamos em viagem neste mundo com outras pessoas, outras comunidades. O cultivo da humildade é uma das disposições mais difíceis e importantes. A segunda disposição é a abertura, ou seja, perceber que o outro com o qual eu entro em relação é alguém marcado por um mistério que eu não consigo jamais englobar, é alguém que experimenta a sua vida num espaço sagrado e que por isso tenho de respeitar a alteridade. Reconhecer que o outro é alguém que merece confiança, que tem uma dignidade e que sua convicção religiosa deve ser respeitada. Uma terceira disposição é a consciência do meu valor, da minha dignidade.

O diálogo deve ser feito por alguém que ama e acredita na sua identidade. Não pode dialogar quem não conhece os traços fundamentais da sua própria identidade. Tenho que dialogar com as minhas convicções para ser respeitado e respeitar as convicções do outro. O diálogo não é feito para abafar as individualidades. Não há diálogo verdadeiro quando eu escondo a minha identidade. Preciso levar ao interlocutor com quem dialogo aquilo que eu acredito. Uma quarta disposição é o sentimento comum de busca da verdade. Os interlocutores devem estar intimamente animados pela ideia de que caminham juntos em busca de um horizonte que só Deus conhece. Nunca um interlocutor está em posse radical do mistério. Somos itinerantes, estamos a caminho, ninguém está em sua pátria. Estamos envolvidos por uma verdade que nos ultrapassa. E é na dinâmica inter-relacional, dialogal, que a verdade vai florescendo. A verdade é a expressão de uma sinfonia inter-religiosa. Uma última disposição é a ecumene da compaixão, o exercício da compaixão. As religiões se unem animadas por uma compaixão comum de luta em favor do outro, da dignidade da terra, do criado, na luta contra o sofrimento, numa disposição de misericórdia.

Vivemos num tempo favorável ao diálogo, por outro lado percebemos um endurecimento das relações com o surgimento de fundamentalismos e extremismos. Como explicar isso?
Essa é a grande estranheza que a gente sente. Apesar de vivermos num tempo marcado pela abertura dialogal, vivenciamos simultaneamente um apego identitário muito forte, identidades que às vezes se revelam mortíferas que não só se fecham nos seus guetos como atacam, não abrindo espaços nas pessoas e comunidades para a percepção do valor. Vivenciamos essa dupla dialética, pelo fato do pluralismo balançar as nossas identidades, colocando-nos diante dum desafio aberto que está relacionado com o mistério do outro que provoca em nós um certo temor e a necessidade de mudar a nossa auto-compreensão. Todo o diálogo autêntico provoca mudança na nossa perspectiva de inserção no mundo e na nossa compreensão da identidade. Mas, nem todos estão preparados, e queremos uma transformação no nosso modo de ser.

Em seus escritos você fala num "pluralismo de princípios". O que seria esse conceito?
Deveríamos distinguir entre um pluralismo de fato e um pluralismo de princípios ou de direito. O pluralismo de fato significa que existe a diversidade religiosa como um fato e não há como driblar essa realidade. Pluralismo de princípio é que existe em nós uma perspectiva diferente; não apenas aceitar isso como um dado histórico, mas perceber essa realidade como algo adquirido por Deus. A diversidade é um dom que se insere na dinâmica misteriosa dos desígnios divinos. Então o pluralismo de princípio significa não apenas apurar a diversidade, mas reconhecer a diversidade como um valor, como uma riqueza fundamental, como parte do mistério de Deus que nós não conseguimos compreender na sua totalidade. O importante é perceber que há uma riqueza nessa diversidade e que ela manifesta a diversificação de um mistério que é sempre maior.

Em que as igrejas e religiões poderiam contribuir para garantir a sobrevivência da humanidade ameaçada?
As religiões têm um potencial garantidor do sentido, de resgatar o sentido ameaçado. Todas as religiões trabalham com elementos de profundidade, com um toque de espiritualidade. Elas têm uma tarefa fundamental de fazer valer essas entranhas do mistério misericordioso. A de rejeitar radicalmente uma situação de sofrimento humano, da terra e têm o papel de se unir em favor da paz mundial como afirmou Hans Küng: "não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões". Então as religiões são convocadas a se unir contra o sofrimento do mundo. Talvez esse seja um dos mais fortes dinamizadores do diálogo inter-religioso.

Muitos conflitos são gerados por motivos religiosos. Qual é a relação entre guerra e religião?
Isso, infelizmente, porque as religiões não são somente portadoras de paz. As religiões estão na história e são marcadas por essa precariedade, são fragmentárias. Portanto, nem sempre, necessariamente as religiões desdobram na sua prática os elementos positivos do mistério. Muitas vezes elas expressam a vontade de determinados grupos ou setores. Penso que a tarefa profética que deve animar todas as religiões é o de lutar contra essas ambiguidades e fazer com que transpareçam como sinais vitais na história, o mistério de um Deus de misericórdia. Nem sempre as religiões são isentas dessa ambiguidade, portanto, elas podem ser tanto portadoras de paz como provocadoras da violência na medida em que elas se deixam levar pela vontade da arrogância de humanos.

Como entender e situar a Missão no horizonte do pluralismo religioso?
Sob o ponto de vista do cristianismo, nós temos como centro de referência fundamental Jesus Cristo. Não há como apagar para nós e para os outros com os quais entramos em contato esse sonho de Jesus, o significado de Jesus como curador da vida, como portador de alegria e como recuperador dos sonhos mais fundamentais. O trabalho da Missão eu vejo muito mais como um exercício de amor e não como um mandato. A Missão não pode ser vista como uma obrigação, mas como uma experiência de amor daqueles que viveram de forma profunda a experiência de contato e de sedução por Jesus Cristo e querem transmitir aos outros essa experiência de amor. Não só de Jesus Cristo como pessoa, mas dos valores que ele trouxe; da cortesia, da hospitalidade, da abertura, da delicadeza, da alegria... Nós somos convocados a partilhar com os outros o significado fundamental desses valores que ele deixou pra nós. Ou seja, nós somos convidados a não deixar apagar esse sonho do Reino de Deus na história. É uma missão respeitosa dos outros.

Que avaliação faz das iniciativas do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs - CONIC, como a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e a Campanha da Fraternidade Ecumênica?
São iniciativas brilhantes. Os ganhos que se têm no diálogo inter-religioso não obstaculizam os trabalhos feitos no campo do ecumenismo. Inclusive, o trabalho ecumênico prepara o campo para uma abertura inter-religiosa. Todas as iniciativas no Brasil e no mundo são peças de grande importância na sensibilização do respeito ao outro, do respeito à consciência do outro. O meu diálogo com o outro é capaz de oferecer percepções da verdade que eu não capto na minha comunidade de fé. O outro é capaz de revelar pra mim elementos inéditos da minha experiência de Deus. Isso abre possibilidade mais ampla para um diálogo inter-religioso que não diminui a importância e o valor do diálogo ecumênico.

* Jaime Carlos Patias, imc, é diretor da revista Missões. Publicado na revista Missões, N.07 Setembro 2010. www.revistamissoes.org.br

Fonte: Revista Missões

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