1º de Maio, 126 anos, a luta não terminou!

Waldemar Rossi *

Manter acesa a luz que ilumina a classe trabalhadora e a faz lembrar-se dos seus mártires.

Ao longo da história das lutas operárias, bem como diante dos seus avanços organizativos, o capital tem desenvolvido uma das suas mais importantes estratégias de dominação: através de atividades esportivas ou de lazer, tem procurado ofuscar a memória dos trabalhadores, oferecendo-lhes uma espécie de ópio, vários tipos de circo, porém, com o pão cada vez mais reduzido. Lembremos que o 1º de Maio foi estabelecido universalmente pelos operários como dia de luto por todos os que tombaram ante as balas e bombas a serviço do capital e como um momento para renovar suas táticas de enfrentamento com a exploração capitalista. Tais "circos", para o capital têm um excelente instrumento de dominação ideológica sobre os trabalhadores.

Até mesmo dirigentes sindicais - mancomunados com o capital - se esforçam para eliminar da cabeça dos trabalhadores a memória dos mártires da sua classe. Se isso tem sido frequente em alguns países capitalistas, tal prática vem sendo bem mais sofisticada no Brasil. Convém lembrar que desde Getúlio Vargas há esforços importantes no sentido de colocar a classe trabalhadora a serviço do capital, sem contestações. O seu principal instrumento foi a "legalização" dos sindicatos, colocando-os como órgãos de colaboração com o Estado e sujeitos à aprovação do Ministério do Trabalho, isto é, sujeitos à aprovação do Executivo Federal. Por tal estrutura burocrática, que leva à subserviência dos dirigentes sindicais aos interesses do capital, o sindicalismo brasileiro tornou-se "pelego" (pele de carneiro com lã colocada sobre as selas dos cavalos e embaixo das nádegas do cavaleiro, visando amortecer os impactos do trote do animal sobre as ancas daquele que o monta. No sindicalismo, dirigente sindical que é colocado na estrutura sindical oficial para evitar as lutas dos trabalhadores e seu enfrentamento com os patrões).

Sindicalismo brasileiro
Depois de alguns anos, parte desses dirigentes sindicais se aliou a Getúlio Vargas para fazer enfrentamento com o que se chamava de "Imperialismo Americano", favorecendo o projeto getulista em desenvolver a indústria nacional sem dependência do capital estrangeiro. Ao fazer acordos com o governo e com o empresariado nacionalista, tais sindicalistas desenvolveram algumas lutas apenas econômicas, passageiras, ludibriando milhões de operários que foram se esquecendo do antagonismo de interesses existentes entre o capital e o trabalho. Era a legitimação do modelo de exploração.

Porém, o movimento social não corre num único caminho, por maior que seja o sistema repressivo e persuasivo que lhe é imposto. Das contradições nasce a consciência, da consciência nasce o processo organizativo e deste desenvolvem-se processos reivindicativos ou mesmo revolucionários. São ensinamentos da História. Com seus altos e baixos, o sindicalismo brasileiro vem reagindo ao longo dos anos, buscando encontrar o espaço próprio da classe trabalhadora.

Nos aos 50/60 do último século, as lutas operárias levaram a algumas conquistas importantes, como o 13º salário para todos os trabalhadores e um percentual acima do salário para as horas extras, por exemplo. Porém, o golpe militar de 1964 acabou com o avanço daquelas lutas. Cassou dirigentes sindicais, impôs interventores em seus lugares, e com a repressão amordaçou os trabalhadores.

Por conta dessa repressão a classe operária brasileira foi criando novas formas de organização independente, principalmente a clandestina no local de trabalho. Dessa acumulação e várias pequenas formas de enfrentamento, resultaram as lutas retomadas a partir das greves de 1978. Seu resultado maior foi o salto político, seja com o entendimento de que existe antagonismo entre capital e trabalho e de que a luta é permanente e árdua, seja com as articulações para se criar, no país, uma Central Sindical, unificada e unificadora das lutas. Daí o surgimento da CUT - Central Única dos Trabalhadores. Porém, essa não seria a única Central.

O capital não vacilou: enquadrou seus antigos aliados, os interventores, e fez com que se juntassem aos dirigentes da tradicional estrutura sindical getulista, agregando também tradicionais inimigos da classe patronal, como o antigo PCB - Partido Comunista Brasileiro, o PC do B - Partido Comunista do Brasil e o MR-8 - Movimento Revolucionário 8. Esse bloco reunido, três meses após criou a CGT - Central Geral dos Trabalhadores, dividindo os trabalhadores brasileiros. De um lado a luta pelo poder sindical, do outro o acordo de todas essas correntes com os militares ainda no poder para se aplicar um pacto social no Brasil - nos moldes do Pacto Social de Moncloa, na Espanha após o franquismo - e com isso interromper o desenvolvimento dessa nova fase das lutas operárias e camponesas no país.

O capital investiu mais em antigos e novos pelegos e em 1991 criou a Força Sindical. Dividir para reinar, esta é a estratégia dos poderosos. Com o seu "sindicalismo de resultados", a Força Sindical contribui para a desaceleração das lutas, favorecendo o capital. Pequenos e passageiros reajustes salariais camuflam a exploração maior que vai sendo imposta aos trabalhadores. Com isto se acomodam, deixando de perceber que o capital vem, pouco a pouco, impondo uma nova estrutura do trabalho.

Aliadas às novas tecnologias, tais mudanças resultam em crescente fechamento de postos de trabalho, em rotatividade de mão de obra e em consequente achatamento salarial "em doses homeopáticas", praticamente imperceptíveis para o conjunto do povo. Assim escreveu padre Júlio Munaro na edição 2.791 do jornal O São Paulo: "notícias divulgadas recentemente mostram que os três principais bancos privados do Brasil - Itaú-Unibanco, Bradesco e Santander - tiveram um lucro líquido de R$ 23,5 bilhões em 2009, além de expandir a quantidade de suas agências e aumentar o número dos seus clientes. No mesmo período, porém, eliminaram 9,9 mil postos de trabalho".

Recuperar o sentido
É diante desse quadro que se trava uma dura guerra de resistência por uma parte do movimento sindical, cujos dirigentes não se deixaram corromper: manter acesa a luz que ilumina a classe trabalhadora e a faz lembrar-se dos seus mártires, daqueles que tombaram ante as balas disparadas a mando dos poderosos. Os 1ºs de Maio classistas visam também denunciar aqueles que organizam os vários circos atraindo milhares de trabalhadores para assistir aos shows de artistas populares e para concorrer aos sorteios de algumas casas e carros. Tudo financiado por grandes empresas nacionais e multinacionais, as mesmas que fecham postos de trabalho, que promovem constantes rotatividades de mão de obra em suas fileiras e que achatam salários.

Assim, depois de 126 anos do martírio do oito de Chicago, a luta não terminou: vai continuar, em busca da justiça social. Um lembrete aos leitores: "vocês não podem servir a Deus a ao dinheiro" (CF 2010).

* Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e membro da Coordenação da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo. Publicado na revista Missões, N.04, Maio 2010.

Fonte: Revista Missões

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