Grito dos excluídos em São Paulo reforça a importância da organização popular

Jaime Carlos Patias

Com o tema "Vida em primeiro lugar: a força da transformação está na organização popular", o 15º Grito dos Excluídos reuniu, na Praça da Sé, em São Paulo, cerca de duas mil pessoas das pastorais sociais, movimentos, partidos políticos, organizações, associações e religiosos. Uma missa presidida pelo cardeal arcebispo, dom Odilo Pedro Sherer, marcada por símbolos que recordavam os diversos gritos do povo brasileiro abriu a programação.

Concelebraram dom Angélico Sândalo, bispo emérito de Blumenau, SC, dom Pedro Luiz Stringhini, bispo auxiliar de São Paulo e presidente da Comissão Pastoral de Justiça e Paz da CNBB, diversos padres e diáconos. "O grito que sobe ao Senhor é fonte de esperança para o povo que se une aos trabalhadores e à Romaria de Aparecida", afirmou dom Pedro fazendo lembrança dos 30 anos do assassinato do líder operário, Santo Dias. O bispo convidou o povo a intensificar a coleta de assinatura para a Campanha Ficha Limpa que propõe a inelegibilidade de candidatos em débito com a justiça.

Na homilia, dom Odilo recordou a última Encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. "Além de buscar soluções locais precisamos buscar soluções globais. Com tanta tecnologia, como é possível existir tanta gente passando fome, com falta de moradia e sem trabalho", perguntou o cardeal. "É preciso globalizar a solidariedade, muito mais do que pensar no confronto de interesses, é preciso somar os interesses para uma nova cultura de colaboração, na qual se olhe mais para aqueles que estão excluídos. Isso se realiza na comunidade humana universal como numa família", disse o arcebispo recordando que o conceito de solidariedade deriva do valor evangélico da fraternidade. Refletindo sobre o Evangelho (Lc 6,1-11), dom Odilo destacou que Jesus curou o paralíti co chamando-o para o meio do convívio das pessoas. "Esse é o ensinamento que a Igreja deveria seguir", concluiu.

Na opinião do Frei Alamiro Andrade Silva, "os excluídos têm nomes, por isso seria importante dar também nomes aos responsáveis pela exclusão e não ficar apenas em afirmações genéricas", o que segundo ele "seria um grito profético".

Após a missa, liderados por um trio elétrico, empunhando bandeiras, o povo fez a tradicional caminhada da Sé até o Parque da Independência, no bairro do Ipiranga. A fraca participação dos partidos políticos e dos grandes sindicatos como a CUT e a Força Sindical, nas lutas dos movimentos sociais foi avaliada pelo deputado federal Ivan Valente, do PSOL, como um retrocesso. O que falta, segundo o deputado, "é o povo na rua para fazer as mudanças. As pessoas pensam que vão mudar o Brasil, tirar o Sarney, fazer grandes transformações, suspender os juros da dívida e fazer a reforma agrária pela Internet. Precisamos o povo organizado em sindicatos, em associações, em movimentos populares. Essa resistência é muito importante para desencadear as mudanças necessárias", argumentou.

Em sintonia com o Grito dos Excluídos, aconteceu também, a 12ª Romaria a Pé, quando cerca de 60 pessoas partiram na manhã de sábado, dia 5, do Parque dos Humildes, em Perus, caminhando até o centro da cidade, para no dia 7, unirem-se ao Grito. "Nós caminhamos porque acreditamos que é possível construir um outro Brasil com cidadania, que respeite a dignidade de seu povo", explicou um dos organizadores da Romaria, Fred Santos que é educador no Centro Pastoral Santa Fé. "Queremos uma pátria livre e justa, onde o povo seja respeitado e ouvido. Caminhamos por mais democracia e por mais participação popular. Enquanto não conquistarmos esses diretos nós sairemos às ruas para dar o nosso grito", disse Fred, representando a Romaria que é promovida pela Região Episcopal Brasilândia e a Diocese de Santo André.

Ao chegar ao Parque da Independência, as últimas lideranças fizeram uso da palavra para expor suas reivindicações e encorajar o povo a continuar na luta. Um caixão depositado diante do monumento da Independência, simbolizava a necessidade de se enterrar a corrupção na política brasileira.

 

Fonte: Revista Missões

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