posse de Obama e o vôo das crianças

Jung Mo Sun *

O culto de domingo (18/01/09) da Igreja Batista da Rua Dezenove em Washington D.C. não foi típico. Entre as pessoas reunidas para celebrar a sua fé, estavam o presidente eleito Barack Obama e a sua família. Às vésperas da posse do novo presidente dos Estados Unidos, é possível imaginar como deveria estar festivo, comovido e agitado o ambiente da igreja. No decorrer do culto um menino declamou: "Rosa Parks ficou sentada para que Martin Luther King Jr. pudesse andar. Martin Luther King andou para que Barack Obama pudesse correr. Barack Obama correu para que todas as crianças possam voar".

Eu penso que é fundamental, nesse momento de grande festa pela posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, manter esta perspectiva histórica. Se não tivesse havido Luther King e outros da sua geração que, através das suas lutas pelos direitos civis dos/as negros/as, dedicaram suas vidas à causa do reconhecimento da dignidade de todos os seres humanos, independente da cor da pele, da raça ou etnia, religião, sexualidade, da sua condição física ou mental e econômica, também não teria havido um Obama nos dias de hoje. E se não tivesse havido uma Rosa Parks que foi presa por recusar a dar o seu lugar no ônibus para um homem branco no sul segregacionista dos Estados Unidos e outras mulheres e homens que um dia disseram: "chega!", também provavelmente não teria havido Luther King que conhecemos.

Na cultura atual, perdemos muito da "consciência história" e muitos pensam que a vida e história são feitas de uma somatória de presentes ou de um "eterno presente". Parece que o "salvador" ou grandes transformações ocorrem só porque ocorrem, "de repente", quase como uma geração espontânea; sem relação com as lutas do passado e as condições objetivas do presente. Recuperar a consciência história é uma tarefa educacional fundamental na luta ideológica do nosso tempo.

Mas há um outro ponto importante na declamação do menino: para que possamos consolidar a consciência história que alimenta nossas lutas e esperanças precisamos também de pessoas-símbolos que sintetizem com suas vidas ou atos mais conhecidos a luta, o sofrimento e a esperança de uma geração ou de um povo. Rosa Parks, Luther King e agora Obama são esses símbolos. Assim como na América Latina tivemos Che, D. Hélder, Mons. Proaño, Betinho, Chico Mendes, Irmã Dorothy Stang e outros/as.

Quando falamos de consciência histórica e de símbolos, estamos falando de futuro e da realidade que ainda não existe e que por isso só pode ser apontado através de linguagens poéticas, míticas, religiosas-espirituais ou outras formas de linguagem simbólica. "Rosa Parks sentou... Luther King andou... Obama correu", tudo isso "para que todas as crianças possam voar".

As personagens evocadas são todas negras, mas os seus sonhos não foram sonhos que beneficiassem somente os negros, pois as lutas que valem a pena são as que almejam resgatar a dignidade e direitos de "todas" as crianças e adultos. São lutas de grupos particulares (negros, pobres, camponeses, mulheres, etc.) que carregam dentro de si os valores universais concretos que humanizam todas as pessoas.

Mas estas lutas e caminhadas carregam também dentro de si contradições típicas da nossa condição humana. Para falarmos do futuro ainda não existente, precisamos de linguagens simbólicas que nos remetem para o além do que é. Essa é a riqueza dos símbolos, a "matéria-prima" básica das religiões e das "imaginações utópicas". Só que podemos cair no risco de nos deslumbrarmos com o que as descrições simbólicas nos possibilitam imaginar e perdermos a percepção do que é humanamente possível.

"Sentou... andou... correu (todos no passado)... para que todas as crianças possam voar". É uma bela imagem que revela um movimento e uma direção em busca do "infinito" evocado na imagem de voar em direção ao céu e às estrelas. Só que o desejo de voar e de chegar às estrelas, presente entre humanos desde que "gente é gente", é ambíguo como todos desejos mais ardentes. A mitologia grega nos conta do Ícaro, que morreu ao se esquecer que era humano e que suas asas eram de cera e se aproximou demais do sol. Ele tinha se deixado levar pelo seu desejo e fantasia para além da sua condição humana.

É claro que ninguém interpretou ao "pé da letra" a afirmação "para que todas as crianças possam voar", mas muitos esperam - mesmo que inconscientemente - que Obama faça bem mais do que é possível; assim como há aqueles/as que não vêem nenhuma diferença entre ele e outros presidentes dos Estados Unidos porque não será capaz de fazer o que está além das suas possibilidades como presidente de um país que gosta de ser a única grande potência militar do mundo e ainda a maior economia do mundo.

Amanhã (20/1/09) Obama será empossado o novo presidente dos Estados Unidos. É um grande dia não somente para os norte-americanos, mas também para uma boa parte do mundo. Como alguém que tenta fazer uma análise sócio-teológica, eu tenho dúvidas, esperanças e ressalvas com relação ao que está sendo anunciado pelo (futuro) governo Obama. Mas, eu não consigo não me emocionar quando vejo os rostos de multidões de pessoas anônimas e famosas que festejaram a sua vitória e estão participando com alegria e esperança dos preparativos para a posse.

*Professor de pós-graduação em Ciências da Religião

Fonte: Adital

 

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