Dia dos pobres

O papa Francisco convocou para 19 de novembro o Dia Mundial dos Pobres. O que significa?

Por Felipe Augusto Ferreira Feijão

O papa Fran­cisco con­vocou para 19 de no­vembro o 1º Dia Mun­dial dos Po­bres. O que sig­ni­fica? Uma co­me­mo­ração da po­breza? Pa­rece que não. Trata-se, antes de mais, de uma re­flexão sobre a re­a­li­dade que as­sola mi­lhares de seres hu­manos.

DMPobres17Surge, então, uma questão fun­da­mental: como iden­ti­ficar o pobre? O papa afirma em sua men­sagem para o re­fe­rido dia: “co­nhe­cemos a grande di­fi­cul­dade que há, no mundo con­tem­po­râneo, de poder iden­ti­ficar cla­ra­mente a po­breza. E to­davia esta in­ter­pela-nos todos os dias com os seus inú­meros rostos mar­cados pelo so­fri­mento, pela mar­gi­na­li­zação, pela opressão, pela vi­o­lência, pelas tor­turas e a prisão, pela guerra, pela pri­vação da li­ber­dade e da dig­ni­dade, pela ig­no­rância e pelo anal­fa­be­tismo, pela emer­gência sa­ni­tária e pela falta de tra­balho, pelo trá­fico de pes­soas e pela es­cra­vidão, pelo exílio e a mi­séria, pela mi­gração for­çada. A po­breza tem o rosto de mu­lheres, ho­mens e cri­anças ex­plo­rados para vis in­te­resses, es­pe­zi­nhados pelas ló­gicas per­versas do poder e do di­nheiro. Como é im­pi­e­doso e nunca com­pleto o elenco que se é cons­tran­gido a ela­borar à vista da po­breza, fruto da in­jus­tiça so­cial, da mi­séria moral, da avidez de poucos e da in­di­fe­rença ge­ne­ra­li­zada!”.

In­fe­liz­mente, na re­a­li­dade vi­ven­ciada num país como o Brasil, numa ci­dade como For­ta­leza, é im­pos­sível, di­a­ri­a­mente, não en­xergar, a dig­ni­dade hu­mana, so­frida e ne­gli­gen­ciada. Tantas si­tu­a­ções, tantos rostos so­fridos, mar­cados pela dor, so­bre­tudo pela in­di­fe­rença, se apre­sentam ni­ti­da­mente, nos mais di­versos am­bi­entes, ainda que estes adotem a edu­cada po­lí­tica de se­gre­gação.

O fi­ló­sofo Man­fredo Oli­veira afirma: “Vi­vemos em um país es­tranho, pois nele, no Brasil ofi­cial, apenas uma par­cela mi­no­ri­tária de sua po­pu­lação é in­cluída. Co­e­xistem, no mesmo ter­ri­tório, uma so­ci­e­dade mo­derna, que cada vez mais se apro­xima, econô­mica e cul­tu­ral­mente, dos países mais ricos do mundo, e uma so­ci­e­dade pri­mi­tiva, com mi­lhões de ha­bi­tantes vi­vendo nas ci­dades e nos campos em con­di­ções de vida que hu­mi­lham a pessoa hu­mana” (1).

Em vir­tude desse dia, surgem al­gumas per­guntas. O per­curso que cada vez mais é se­guido pelo mo­delo go­ver­na­mental vi­gente, se volta para os vul­ne­rá­veis? A agenda ne­o­li­beral que cada vez mais se ex­pli­cita em pri­va­ti­za­ções, trans­for­mação de ser­viços pú­blicos em pro­dutos que se vendem e com­pram no mer­cado, va­lo­ri­zação da edu­cação tec­ni­cista e me­didas que be­ne­fi­ciam os po­de­rosos em de­tri­mento dos mais fracos, são do in­te­resse de quem?

Ora, num Con­gresso Na­ci­onal con­si­de­ra­vel­mente cons­ti­tuído por en­vol­vidos em cor­rupção e in­ves­ti­gados ou de­nun­ci­ados, não existe in­te­resse para que as de­mandas po­pu­lares sejam mi­ni­ma­mente aten­didas. Há, sim, in­te­resse de grupos es­tra­ti­fi­cados es­pe­ci­fi­ca­mente em de­fesa de re­pre­sen­tação pró­pria.

Fe­liz­mente, um dia de­di­cado aos po­bres supõe a pos­si­bi­li­dade de re­flexão sobre essa evi­dente si­tu­ação.

Nota:
1) OLI­VEIRA, Man­fredo. De­sa­fios éticos da glo­ba­li­zação. São Paulo: Pau­linas, 2008, p. 5.

*Fe­lipe Au­gusto Fer­reira Feijão é es­tu­dante de Fi­lo­sofia da UFC.

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