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Palmas para a Missão: entrevista com dom Pedro Brito, arcebispo de Palmas - TO

24/04/2012 | Pedro Facci * e Jaime C. Patias **

Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio. (Jo 20, 21)

A arquidiocese de Palmas, no Tocantins, acolhe o 3º Congresso Missionário Nacional.

A Igreja no Brasil prepara o seu 3º Congresso Missionário Nacional (3º CMN), que acontece entre os dias 12 e 15 de julho em Palmas, TO, uma iniciativa das Pontifícias Obras Missionárias (POM), Conselho Missionário Nacional, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). Em pauta estarão temas como a missão diante de um mundo secularizado; a relevância do Vaticano II e o compromisso com a missão aqui e além-fronteiras. O Congresso de Palmas reunirá cerca de 600 pessoas representantes dos Regionais e organismos missionários, e servirá como preparação do Brasil para o 4º Congresso Missionário Americano - CAM 4 - Comla 9, marcado para 2013, em Maracaibo, na Venezuela.

Entrevistamos o presidente de honra do Congresso, dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo de Palmas, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB.

Dom Pedro, o que significa celebrar um Congresso Missionário Nacional na arquidiocese de Palmas?

É difícil falar em missão e não me emocionar, melhor dizendo, sem me apaixonar. A missão é o maior encantamento do meu ministério episcopal. É a pupila dos meus olhos e a alegria do meu coração. Com esta paixão pela missão, é difícil não admitir que sediar o 3º Congresso Missionário Nacional seja um privilégio para poucas dioceses. O Brasil não tem muita tradição em Congressos Missionários, haja vista ser este apenas o terceiro. E quando uma diocese é escolhida para sediar um Congresso Missionário entre as 274 existentes, é um privilégio e uma bênção. Este Congresso é uma chuva de bênçãos para Palmas e para o Tocantins. Se este acontecesse em outra diocese, eu ficaria meio enciumado, no bom sentido, é claro. A partir dele, Palmas pode se olhar e se pensar na ótica da missão. Então, significa muito, muito mesmo, ou melhor, tudo, tudo de bom.

O senhor estava presente no 2º Congresso em Aparecida (2008). Quais os avanços da Igreja do Brasil na missão?

Parafraseando o que já se disse sobre as CEBs, "a missão é um novo jeito de ser Igreja". Estive presente no 2º Congresso Missionário Nacional, em Aparecida, e também no 3º Congresso Americano (CAM 3 - Comla 8), em Quito, no Equador, na condição de membro da Comissão Missionária. Para mim foram dois momentos de graça. De lá para cá, muitas coisas mudaram nos cenários do mundo e da missão. O mundo mudou e muda constante e velozmente. Num só dia é capaz de acontecer coisas que, no passado, só aconteciam no arco de um mês, de um ano ou de um século. Isto vale também para a missão. A vigilância e o avanço missionários são missões de cada dia. Por isto, está mais do que na hora de uma nova parada para abastecer a máquina, arrumar a mochila e reprogramar o roteiro de viagem. Sobre os avanços, penso igual ao que pensava o compositor e cantor Belchior: "minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais". Ainda sofremos de uma doença pouco diagnosticada: a anemia missionária. Mas, de verdade, avançamos, sim, e muito, talvez não na proporção e na velocidade que deveríamos avançar. Para mim o maior avanço está no crescimento da consciência e da cultura missionárias: as formações, as Semanas Missionárias, as Santas Missões Populares, os congressos, os vários cursos e encontros. Também a descoberta da vida como missão é mais um sinal deste avanço: deixamos de ver a missão como algo simplesmente religioso-teológico para entendê-la como algo antropológico.

No entanto, o maior destaque atribuo às Diretrizes da Ação Evangelizadora 2011 a 2015, nas quais a "Igreja em estado permanente de missão" se tornou uma urgência pastoral. Além de ser urgência, ainda vem em primeiro lugar. Urgências são agendas, tarefas, compromissos e orientações de como a Igreja deve ser, viver e evangelizar em nossos dias, cheia de um amor vivo a Jesus e à sua Palavra, de ardor, de entusiasmo e de vontade de ir ao encontro das pessoas. Tomara que a missão não deixe de ser urgência, enquanto não passar a ser prática cotidiana. Ainda temos que avançar muito.

Como estão os preparativos em Palmas e quais são as expectativas para o novo Congresso?

Os meus desejos missionários são sempre maiores do que as possibilidades de vê-los realizados, assim como era o desejo de um salmista. Neste ponto, sou um sonhador e utópico. Palmas está se preparando para ser a casa missionária do Brasil. A este respeito, já escrevi dois artigos: "Palmas, Casa da Missão" e "Palmas, Casa da Missão do Brasil". No primeiro, eu disse: "Palmas já está preparando os corações, limpando o terreno e fincando as primeiras estacas para a construção desta Casa da Missão. Se o terreno for bem preparado, o projeto bem feito e os operários competentes, Palmas se transformará, em breve, em Casa da Missão, onde cada região e cada paróquia se tornarão um cômodo desta Casa". No segundo, disse também: "Palmas se prepara para acolher, de braços abertos e com um sorriso no canto da boca, todas as expressões e as forças missionárias, provenientes de todos os rincões deste imenso Brasil, para participar do 3º Congresso Missionário Nacional". Posso dizer que o clima do Congresso já está invadindo os corações dos palmenses. Nesta preparação, estamos aprendendo as seguintes lições: 1) acolher bem os missionários e as missionárias; 2) ser uma Igreja missionária; 3) ser e viver a missão; 4) ser uma Igreja missionária... Estamos nesta escola. Não sabemos se vamos ser aprovados.


Como a temática do Congresso poderia ajudar as nossas comunidades a viver um novo impulso e ardor missionário além-fronteiras?

Missão é páscoa, é partida, é saída, é passagem, é êxodo, é diáspora, é diástole. Missão é o envio para a vida, para a humanidade. Todos os caminhos da missão já foram percorridos por Jesus, missionário do Pai. Por Ele o Mar Vermelho já foi atravessado, a pé enxuto. O seu Reino não tem fronteiras. Missão que é missão ultrapassa quaisquer fronteiras para atingir o coração da humanidade. Missão com fronteiras não é missão. A fronteira da missão é a dor do irmão. Por isto as outras fronteiras, mais do que geográficas, são imaginárias e transponíveis. Estas fronteiras são os condicionantes, os reducionismos, as justificativas. Já se disse que missão não é simplesmente partir. Há quem parte e não chega missionariamente a lugar nenhum. Ficar no mesmo lugar, fiel a Jesus Cristo e ao povo de Deus, também é missão. Cada vez me convenço mais de que a fronteira da missão é o amor. Missão é um caso de amor verdadeiro. Dar amor é dar a vida; dar a vida é dar amor; e dar amor e dar a vida é dar missão. Ninguém tem maior missão do que aquele que dá a vida por seu irmão.

O discipulado é para a missão. Como vivê-la numa dimensão cada vez mais universal?

Preciso concluir. Busquei na memória, procurei no recôndito do meu coração palavras para responder a esta pergunta. Creio que não existem palavras mais adequadas para respondê-la do que as palavras finais do Documento de Aparecida: "Recobremos, portanto, o ‘fervor espiritual'. Conservemos a doce e confortadora alegria de evangelizar, inclusive quando é necessário semear entre lágrimas. Façamo-lo, como João Batista, como Pedro e Paulo, como os demais Apóstolos, como essa multidão de admiráveis evangelizadores que se sucederam ao longo da história da Igreja. Façamos tudo isso com ímpeto interior que ninguém e nada seja capaz de extinguir. Seja essa a maior alegria de nossas vidas dedicadas. E oxalá o mundo atual - que procura (por Jesus Cristo) às vezes com angústia, às vezes com esperança - possa assim receber a Boa Nova, não através de evangelizadores tristes e desalentados, impacientes ou ansiosos, mas através de ministros do Evangelho, cuja vida irradia o fervor de quem recebeu, antes de tudo em si mesmos, a alegria de Cristo e aceitam consagrar sua vida à tarefa de anunciar o Reino de Deus e de implantar a Igreja no mundo. Recuperemos o valor e a audácia apostólicos" (DA 552).

* Pedro Facci, PIME, é diretor da revista Mundo e Missão.

** Jaime C. Patias, imc, é diretor da revista Missões e assessor de imprensa do 3º CMN.

Fonte: www.pom.org.br/congresso / Mundo e Missão - Missões

 

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