Papa Francisco e a 'Lava jato' católica

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Papa Francisco encontra o clero de Roma (ANSA)

Das finanças à pedofilia na Igreja: veja como o pontífice argentino têm correspondido às expectativas de mudança relativas à estrutura da Igreja Católica

Mirticeli Medeiros*

Francisco foi eleito em 2013. Naquele ano, ele não só traçou seu programa de governo, como também lançou as bases para a sua reforma. Assumiu o papado consciente que fora designado para uma missão específica: "acabar com a mamata", em outras palavras.

No conclave de 2013, os cardeais elaboraram uma lista de compromissos que deveria ser seguida à risca pelo novo sumo pontífice. Já nas congregações gerais, eventos que antecedem a votação pontifícia, e são responsáveis pela elaboração do perfil de quem deve ocupar o trono de Pedro, duas ações deveriam ser privilegiadas pelo novo líder da Igreja Católica:

1 – Melhorar a credibilidade da instituição – objetivo que passaria, inevitavelmente, pela fiscalização e reestruturação das finanças vaticanas, o pivô dos escândalos que abalaram o pontificado de Bento XVI. Por isso, em 2014, Francisco criou a Secretaria da Economia, que atua na supervisão das operações (desde a captação de recursos à distribuição de dinheiro) dentro do pequeno Estado.

2 – Realizar a reforma da Cúria Romana, realidade sobre o qual ainda paira um "espírito de corte" difícil de ser exorcizado. A ideia era transformá-la num organismo "menos eurocêntrico e mais acessível" para atender melhor às necessidades da Igreja como um todo.

A mudança

Não por acaso, a constituição apostólica de reforma do governo central da Igreja, cujo nome provisório é Praedicate Evangelium, que está para ser lançadadeixa claro que "a Cúria Romana não serve somente ao papa, mas a todos os bispos católicos". Na visão de Francisco, "os dicastérios romanos são mediadores, não gestores", como fez questão de frisar em entrevista à revista Civiltà Cattolica, em 2013.

Além disso, a criação de uma comissão para acabar com a pedofilia na Igreja, em 2014, é outro passo importante. As várias reformas legislativas realizadas pelo papa, que preveem uma postura mais transparente da Igreja frente às denúncias de abusos e uma maior colaboração com a justiça civil para a punição dos culpados, já são consideradas as mais efetivas realizadas por um pontífice.

O papa argentino, que mostra claramente sua oposição ao carreirismo dentro da Igreja, não têm dado muita chance para quem tem feito da instituição o seu meio de projeção pessoal. Diante disso, muitos prelados, acostumados com a permanência ad aeternum em escritórios do Vaticano, se viram ameaçados. Francisco não quer cargos vitalícios dentro da estrutura. Estabeleceu que, após 5 anos, alguns cargos de chefia em dicastérios (ministérios) do Vaticano não serão renovados. É um modo de afastar cardeais que não querem "largar o osso".

Cardeal demitido

Muita gente, sem dúvida, foi pega de surpresa ao saber da demissão do cardeal italiano Angelo Becciu (72), ocorrida na semana passada. Antes de se tornar cardeal e prefeito da Congregação para a Causa dos Santos – escritório responsável pelos processos de canonização na Igreja –, o religioso era considerado "o número 3 do Vaticano", já que ocupava o cargo de "substituto da Secretaria de Estado", uma espécie de "chefe de gabinete" do papa, até 2018.

Entre as prerrogativas da função, Becciu poderia ter acesso ao montante do Óbulo de São Pedro, fundo mantido pelas doações espontâneas dos fiéis de todo mundo, que é reservado exclusivamente às obras de caridade do papa. Quando acontece uma tragédia de qualquer natureza, é dessa reserva que o sumo-pontífice retira o dinheiro para ajudar as populações atingidas. Foi do Óbulo, por exemplo, que saiu a quantia para a compra dos respiradores que foram enviados ao Brasil durante a pandemia.

De acordo com as investigações, o cardeal, na época, teria desviado cerca de 100 mil euros – mais de 600 mil reais – dos cofres do Vaticano para a conta de uma obra assistencial administrada pelo irmão na região da Sardenha, na Itália. Por isso, é suspeito de ter cometido crime de peculato, que ocorre quando a pessoa faz uso de dinheiro público para beneficiar familiares.

O prelado, após essa acusação, perdeu todos os direitos ou "vantagens" do cardinalato que, na prática, o impede de acompanhar decisões e eventos dos quais só podem participar cardeais. Ele continua com título de cardeal, entretanto, não pode exercer efetivamente o cargo. A partir de agora, ele não será chamado para consistórios, conclaves ou reuniões extraordinárias. E perde também o "foro privilegiado" reservado a todos os cardeais. De acordo com as leis católicas, um cardeal só pode ser julgado diretamente pelo papa. E só pode ser submetido a julgamento dentro de algum tribunal do Vaticano se o papa delegar e transferir a competência para tal.

Apesar de o cardeal ter se declarado inocente, Francisco, o papa da misericórdia, demonstrou que, em seu pontificado, o braço de ferro da justiça também se manifesta. O caso Becciu é símbolo da política tolerância zero de Francisco em relação à corrupção dentro do Vaticano. Quando a equipe do santo padre passa fazendo a varredura, todos são tratados igualmente. Mais um ponto para o quesito "devolver a credibilidade à Igreja", já que, na visão do papa atual, a limpeza deve começar dentro de sua própria casa.

O cardeal hondurenho Óscar Maradiaga, um dos membros da comissão de cardeais, criada por Francisco em 2013, disse em entrevista ao jornal italiano La Stampa, nesta semana, que "o sistema de controle das operações financeiras do Vaticano era ineficaz". E acrescentou que, há 7 anos, "a equipe está trabalhando para corrigi-lo".

Uma demonstração que, embaixo dessa ponte, tem muita água para rolar. E, pelo jeito, Francisco está disposto a levar adiante sua política de renovação, de modo que, entre os sagrados palácios, a fé seja o único patrimônio em torno do qual os seus colaboradores queiram se concentrar.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.
Fonte: domtotal.com

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