Comemoração ou indignação?

Ato comemora 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por André Rodrigues Nagy*

Na Catedral da Sé houve uma cerimônia em comemoração aos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, quando representantes de várias religiões (ligados ao coletivo ecumênico Frente Inter Religiosa Dom Paulo Evaristo Arns por Justiça e Paz) se revezaram em manifestação acompanhada por militantes de vários grupos e entidades de luta pela democracia e defesa dos direitos humanos no Brasil.

As falas focaram principalmente o fato de que em todo o mundo, mesmo nas grandes democracias ocorre, após 70 anos da promulgação, desrespeito aos direitos humanos em todos os níveis.

Dom Odilo Pedro Scherer da Igreja Católica foi o primeiro a discursar e reforçou, além das guerras atuais e da violência, a intolerância religiosa que impera em quase todo o mundo.

O Pastor Ariovaldo Ramos da Comunidade Cristã Reformada, segundo a discursar, reforçou que a luta pela democracia é hoje um fator determinante na resistência às injustiças e em defesa da vida. Destacou, como todos, a intolerância que os vários grupos étnicos e religiosos sofrem pelo mundo afora, sendo bastante ovacionado pela assistência.

fotodireitoshumanos2As manifestações que se seguiram tiveram a mesma tônica, a intolerância como fio condutor dos discursos. O Sheikh Mohamed Al Bukai da Comunidade Islâmica e o Rabino Alexandre Leone da Comunidade Judaica destacaram as perseguições a que são alvo e contaram a história recente a que seus povos foram vítima e ainda são.

O Cacique Guarani Adolfo Timóteo da Aldeia do Rio Silveira de Boracéia, divisa entre Bertioga e São Sebastião, litoral paulista, destacou que a questão indígena é de suma importância, pelo fato de que apenas em 1988 foram entendidos como Povo - não como selvagens.  Ressaltou que este estigma ainda existe hoje. Destacou que o respeito às tradições e às diferenças estão resguardados pela Constituição de 1988 e precisamos garantir que nenhum presidente eleito venha a retirar estes direitos tradicionais, sendo muito aplaudido neste momento.

Seguido do Monge Ryozan Sensei do Budismo Zen que destacou esta questão da aceitação do outro e da tolerância com o diferente “todos somos iguais perante a lei, mas respeitando nossas diferenças”.

Iyá Adriana de Nanã, do Candomblé, destacou além das intolerâncias religiosa, étnica, de gênero, de origem, de classe a questão da Fraternidade e da Solidariedade, Adriana (filha de Nanã) discursou sobre o acolhimento vivido em sua casa quando sua mãe recebia todos com o mesmo carinho.  Perseguidos de qualquer origem sempre foram acolhidos com o máximo de respeito, motivo pelo qual sua mãe sempre era procurada, lá não havia perseguição, só fraternidade, palavra de ordem até hoje seguida.

Após o ato inter-religioso, seguiu-se um ato nas escadarias da Catedral quando em jogral foram lidos os artigos dos diretos universais da humanidade. Artistas membros do movimento social e representantes religiosos, uma a um foram declarando os artigos da Declaração e eram seguidos da plateia repetindo a fala. Dentre estes o mais emblemático foi sem dúvida Sérgio Mamberti, que aos 79 anos estava em forma e leu vários artigos e sempre aplaudido, os lia e era repetido pela assistência.

A pergunta do título fica sem resposta, a nossa sociedade não tem motivo para comemorar, está muito arraigada em seus “direitos” individuais, esquecendo os direitos universais, então a indignação também não é a resposta, eu comemorei o fato de estarmos juntos nesta luta pela diversidade, pela igualdade, pelo respeito à vida, congraçando-me junto a estes jovens de hoje e de ontem que com sua revolta juvenil mudam e mudaram muito deste status quo hoje muito triste de nossa sociedade.

E você comemorou ou se indignou no dia 10?

*André Rodrigues Nagy é sociólogo.

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