Febre amarela: consequência do corte de investimentos e demora na campanha de vacinação

Entrevista com a médica Melina Pecora, que explica as razões da epidemia.

Por Gabriel Brito*

No mo­mento em que a im­plan­tação do Sis­tema Único de Saúde com­pleta 30 anos, mais um surto de do­ença an­te­ri­or­mente con­tro­lada marca o verão bra­si­leiro. A res­peito das causas do re­torno da febre ama­rela ao no­ti­ciário, com al­gumas de­zenas de ví­timas fa­tais, o Cor­reio en­tre­vista a mé­dica Me­lina Pe­cora, que ex­plica as ra­zões de mais essa epi­demia trans­mi­tido pelo mos­quito aedes egypti.

“O pro­blema se deve à falta de pla­ne­ja­mento, que tem sua raiz em uma gestão ine­ficaz, aliada ao corte de pro­gramas de pro­fi­laxia e atenção bá­sica. Ou seja, quando você di­minui as con­sultas de ro­tina com o fe­cha­mento de Uni­dades Bá­sicas de Saúde, au­to­ma­ti­ca­mente o con­trole das imu­ni­za­ções será di­mi­nuído. Pois são nessas uni­dades que o mé­dico olha o cartão de va­cinas e ori­enta a sua atu­a­li­zação”, ex­plicou.

febreamarela2Dessa forma, Me­lina Pe­cora entra no mé­rito das de­ci­sões po­lí­ticas dos atuais ad­mi­nis­tra­dores da Re­pú­blica e seu mi­nis­tério, co­man­dado por Ri­cardo Barros, oriundo da ban­cada evan­gé­lica e en­fá­tico de­fensor da ini­ci­a­tiva pri­vada.

“As po­lí­ticas para atacar as causas da epi­demia de­ve­riam ter sido feitas an­te­ri­or­mente, através de pro­gramas do SUS, com foco na atenção bá­sica e pri­mária. Em uma po­lí­tica de des­monte do SUS, com pri­o­ri­dade para em­presas pri­vadas ge­rirem a saúde, ra­ra­mente se ataca a causa de qual­quer en­fer­mi­dade”, cri­ticou.

A en­tre­vista com­pleta com Me­lina Pe­cora pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: Em pri­meiro lugar, a que se deve o atual surto de febre ama­rela? 

Me­lina Pe­cora: O atual surto de febre ama­rela é uma questão com­plexa e se deve a vá­rios fa­tores, en­tre­tanto al­gumas ques­tões devem ser pon­tu­adas: a saúde bá­sica é aquela ati­nente às ques­tões de pre­venção e pro­fi­laxia de do­enças, o que en­globa hu­ma­ni­zação, bem como cam­panha de va­ci­nação.

Ora, se a po­lí­tica atual é vol­tada para cortes de in­ves­ti­mentos em saúde bá­sica e pri­mária te­remos o re­flexo na prá­tica. As cam­pa­nhas se ini­ci­aram tar­di­a­mente após os casos de óbito de­cor­rentes do surto que se alas­trou.

Cor­reio da Ci­da­dania: Quais as pos­si­bi­li­dades reais de se tornar uma epi­demia de grandes pro­por­ções na po­pu­lação?

Me­lina Pe­cora: Di­ante do alas­tra­mento da pa­to­logia passou-se a buscar uma va­ci­nação em massa. O pro­blema se deve à falta de pla­ne­ja­mento, que tem sua raiz em uma gestão ine­ficaz, aliada ao corte de pro­gramas de pro­fi­laxia e atenção bá­sica. Ou seja, quando você di­minui as con­sultas de ro­tina com o fe­cha­mento de Uni­dades Bá­sicas de Saúde, au­to­ma­ti­ca­mente o con­trole das imu­ni­za­ções será di­mi­nuído. Pois são nessas uni­dades que o mé­dico olha o cartão de va­cinas e ori­enta a sua atu­a­li­zação.

Além disso, há os pro­gramas de ori­en­tação de va­cinas, o que também não foi pri­o­ri­dade deste go­verno. Não estou ava­li­ando ques­tões par­ti­dá­rias e muito menos os go­vernos an­te­ri­ores, mas o que ocorreu pon­tu­al­mente em termos de saúde pú­blica e o atual surto de febre ama­rela ti­nham como ser evi­tados ou di­mi­nuídos em suas pro­por­ções.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que pensa das cam­pa­nhas ofi­ciais de va­ci­nação? Estão sendo feitas cor­re­ta­mente? 

Me­lina Pe­cora: As cam­pa­nhas ofi­ciais devem ocorrer antes do apa­re­ci­mento da pa­to­logia. E de ma­neira or­ga­ni­zada a fim de não apa­vorar a po­pu­lação, cau­sando as filas in­ter­mi­ná­veis, a falta de va­cinas e até o ex­travio das mesmas.

Em uma ma­neira equi­li­brada de pre­venção, ana­li­sando-se ques­tões am­bi­en­tais e po­pu­la­ci­o­nais, não há pâ­nico nem óbitos em grandes pro­por­ções.

Cor­reio da Ci­da­dania: Há po­lí­ticas, ao menos em pro­cesso de ela­bo­ração, para atacar as causas de tal pro­blema?

Me­lina Pe­cora: As po­lí­ticas para atacar as causas da epi­demia de­ve­riam ter sido feitas an­te­ri­or­mente, através de pro­gramas do SUS, com foco na atenção bá­sica e pri­mária. Em uma po­lí­tica de des­monte do SUS, com pri­o­ri­dade para em­presas pri­vadas ge­rirem a saúde, ra­ra­mente se ataca a causa de qual­quer en­fer­mi­dade.

Cor­reio da Ci­da­dania: Não se tra­tava de mais um tipo de vírus er­ra­di­cado em dé­cadas an­te­ri­ores em di­versas re­giões do país? 

Me­lina Pe­cora: O vírus cau­sador da febre ama­rela é um vírus da fa­mília ar­bo­vírus e gê­nero fla­vi­vírus. O mos­quito é apenas o vetor (ou seja, trans­missor).

A di­fe­rença na trans­missão entre a febre ama­rela ur­bana e sil­vestre, é que a febre ama­rela sil­vestre é trans­mi­tida pelo mos­quito he­ma­gogus, já a ur­bana é trans­mi­tida pelo aedes egipty.

A febre ama­rela es­teve con­tro­lada em anos an­te­ri­ores. Não er­ra­di­cada, mas con­tro­lada.

As po­lí­ticas pú­blicas en­volvem também um com­bate ao trans­missor, que é o mos­quito, de ma­neira or­ga­ni­zada e or­de­nada, bem como uma va­ci­nação es­tra­té­gica onde vivem as po­pu­la­ções mais ex­postas ao risco. A va­ci­nação deve ser es­tra­té­gica e a va­ci­nação em massa vir em um mo­mento pos­te­rior.

Cor­reio da Ci­da­dania: Você en­xerga tal en­demia com as po­lí­ticas de aus­te­ri­dade dos úl­timos anos? Há uma re­lação di­reta?

Me­lina Pe­cora: Toda po­lí­tica pú­blica nada mais é do que uma es­colha. Onde eu vou aplicar o di­nheiro?

Com a atual gestão as op­ções são de re­tirar di­nheiro das aten­ções bá­sicas e aplicá-lo em es­pe­ci­a­li­dades, através da pri­va­ti­zação da saúde. Com a volta de pa­to­lo­gias antes con­tro­ladas.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que pensa da hi­pó­tese le­van­tada por al­guns es­pe­ci­a­listas no sen­tido de en­xergar uma pos­si­bi­li­dade de o surto ter se ini­ciado a partir das áreas con­ta­mi­nadas pelo rom­pi­mento da bar­ragem da Sa­marco?

Me­lina Pe­cora: Todo de­se­qui­lí­brio eco­ló­gico pode levar ao re­cru­des­ci­mento de pa­to­lo­gias já con­tro­ladas, uma vez que al­tera a flora e o ecos­sis­tema. Po­demos ter in­dí­cios de que o rom­pi­mento da bar­reira da Sa­marco veio a cor­ro­borar com a epi­demia, en­tre­tanto não há como aferir tal fato.

Cor­reio da Ci­da­dania: Neste 2018 com­pletam-se 30 anos da cri­ação do Sis­tema Único de Saúde. A febre ama­rela ser o as­sunto do ano seria, de algum modo, uma das sín­teses pos­sí­veis da tra­je­tória do sis­tema? 

Me­lina Pe­cora: O SUS é for­mado pelo con­junto de todas as ações e ser­viços de saúde pres­tados por ór­gãos e ins­ti­tui­ções pú­blicas fe­de­rais, es­ta­duais e mu­ni­ci­pais, da ad­mi­nis­tração di­reta e in­di­reta e das fun­da­ções man­tidas pelo poder pú­blico. À ini­ci­a­tiva pri­vada é per­mi­tido par­ti­cipar desse sis­tema de ma­neira com­ple­mentar. O SUS foi sem dú­vida uma das mai­ores con­quistas so­ciais da Cons­ti­tuição Fe­deral.

Eu de­fino toda po­lí­tica pú­blica como uma es­colha. Uma es­colha de apli­cação do di­nheiro pú­blico em de­ter­mi­nados se­tores e ser­viços, com a fi­na­li­dade do bem comum. Caso a po­lí­tica pú­blica não ti­vesse esta fi­na­li­dade ha­veria um desvio de fi­na­li­dade.

A febre ama­rela seria uma sín­tese pos­sível da es­colha feita, onde não se pri­o­riza a saúde pú­blica. Sendo que cabe a esta ques­tões como os es­quemas de va­ci­nação cui­da­do­sa­mente es­tu­dados a fim de que se con­trolem os surtos, bem como es­quemas de con­trole do vetor (trans­missor). A ex­per­tise para me­di­cina sa­ni­tária (que cuida destas ques­tões) advém de um Sis­tema Único de Saúde in­te­grado e fun­ci­onal.

*Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

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