Catalunha: "o mais provável é que aumente a repressão e tratem de impedir a declaração de independência

A so­ci­e­dade civil ca­talã tem uma tra­dição muito forte de luta desde os sé­culos 18 e 19,  de­sen­vol­vidas com foco em au­to­gestão e auto-or­ga­ni­zação po­pular e co­mitês de bairro.

Por Raphael Sanz

No dia pri­meiro de ou­tubro a Ca­ta­lunha tomou as man­chetes da im­prensa in­ter­na­ci­onal ao votar o seu con­tro­verso re­fe­rendo sobre a in­de­pen­dência da re­gião em re­lação ao Reino da Es­panha. Uma pauta an­tiga, que com algum apoio ins­ti­tu­ci­onal con­se­guiu juntar forças para re­a­lizar a con­sulta. Se por um lado houve forte re­pressão po­li­cial, que deixou 800 fe­ridos, por outro, é no­tável o en­vol­vi­mento po­pular neste re­fe­rendo. Sobre isto con­ver­samos com Aritz García, que atuou como ob­ser­vador de di­reitos hu­manos para o re­fe­rendo, em Bar­ce­lona.

“Toda a or­ga­ni­zação es­tava sis­te­ma­ti­zada. Na sexta (29/9) de noite, no sá­bado e no do­mingo até as cinco da manhã, as pes­soas se con­cen­traram nos co­lé­gios. As urnas e cé­dulas elei­to­rais foram che­gando aos poucos ao longo desse pe­ríodo. E de ma­neira se­creta, porque os po­li­ciais do es­tado es­pa­nhol es­tavam há duas se­manas bus­cando de­ses­pe­ra­da­mente essas urnas e essas cé­dulas para im­pedir o re­fe­rendo. Assim, quando as urnas e cé­dulas che­gavam aos co­lé­gios, as pes­soas as pro­te­giam com os pró­prios corpos. Cen­tenas de mi­lhares de pes­soas se jun­taram nos co­lé­gios não só para votar, mas também para pro­teger com o pró­prio corpo o co­légio elei­toral em si”, re­latou Aritz.

catalunha1Após a con­tagem de votos, uma ampla vi­tória do Sim (a favor da in­de­pen­dência) por 90%, que cor­res­pondem a cerca de 38% do total de elei­tores na Ca­ta­lunha, haja vista que dos cinco mi­lhões de elei­tores, apenas 2,2 mi­lhões con­se­guiram com­putar seus votos. Para além das pes­soas que nor­mal­mente não votam e das que não saíram a votar por medo da re­pressão, um grande nú­mero de urnas (cerca de 400) e cé­dulas elei­to­rais foram con­fis­cadas pelo Es­tado es­pa­nhol ao longo do do­mingo.

Sobre a apli­cação dos re­sul­tados do re­fe­rendo, García afirma que: “em 10 de ou­tubro, 13 horas no ho­rário de Bra­sília, foi de­cre­tada a Re­pú­blica pelo pre­si­dente ca­talão Carles Puid­ge­mont, o que não sig­ni­fica a de­cla­ração de in­de­pen­dência, mas um me­ca­nismo de ne­go­ci­ação po­lí­tica do Es­tado. Ainda não dá para fazer muitos prog­nós­ticos, temos que ver quais serão os pró­ximos ca­pí­tulos e como isso vai acabar. O mais pro­vável é que au­mente o nível de re­pressão e tratem de im­pedir a de­cla­ração de in­de­pen­dência, mas nada é certo”.

A en­tre­vista com­pleta com Aritz García pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como você de­fine o do­mingo do re­fe­rendo, re­a­li­zado sob forte re­pressão do Es­tado es­pa­nhol e alta par­ti­ci­pação po­pular tanto no voto quanto na or­ga­ni­zação?

Aritz García: É im­por­tante co­meçar este re­lato na sexta-feira an­te­rior ao re­fe­rendo. Neste dia 29 de se­tembro de 2017, nas es­colas que ser­vi­riam como co­lé­gios elei­to­rais, as as­so­ci­a­ções de mães e pais de alunos de cada uma das es­colas se or­ga­ni­zaram para fazer ati­vi­dades du­rante toda a sexta e o sá­bado, até a pri­meira hora da manhã do do­mingo para que as es­colas não pu­dessem ser fe­chadas pela po­lícia e to­madas pelo Es­tado es­pa­nhol.

É um pro­cesso muito in­te­res­sante do qual po­demos falar em três as­pectos. Pri­meiro, a po­pu­lação dos bairros, com suas fa­mí­lias, a or­ga­nizar ati­vi­dades para o bairro nas es­colas, a fim de tê-las abertas du­rante todo o fim de se­mana como me­dida de pro­teção para que os po­li­ciais do Es­tado es­pa­nhol não en­trassem e fe­chassem as es­colas para im­pedir o re­fe­rendo do do­mingo.

Se­gundo, a so­ci­e­dade civil ca­talã tem uma tra­dição muito forte de luta desde os sé­culos 18 e 19, mas es­pe­ci­al­mente forte em tra­di­ções li­ber­tá­rias e anar­quistas, de­sen­vol­vidas na Ca­ta­lunha, com foco em au­to­gestão e auto-or­ga­ni­zação po­pular e co­mitês de bairro. Seja hoje em dia ou há sé­culos. Essa tra­dição se ex­pressou no do­mingo por meio dos co­mitês de de­fesa do re­fe­rendo, de bairros, e na terça, dois dias de­pois, se ma­ni­festa pelos co­mitês de de­fesa da greve.

De um lado temos os bairros or­ga­ni­zados em de­fesa dos co­lé­gios. De outro lado, toda uma rede co­or­de­nada de grupos e pes­soas que apren­deram a atuar clan­des­ti­na­mente se dis­pondo a guardar e cuidar das urnas e cé­dulas elei­to­rais.

Toda a or­ga­ni­zação es­tava sis­te­ma­ti­zada. Na sexta de noite, no sá­bado e no do­mingo até às cinco da manhã, as pes­soas se con­cen­traram nos co­lé­gios. As urnas e cé­dulas elei­to­rais foram che­gando aos poucos ao longo desse pe­ríodo. E de ma­neira se­creta, porque os po­li­ciais do Es­tado es­pa­nhol es­tavam há duas se­manas bus­cando de­ses­pe­ra­da­mente essas urnas e essas cé­dulas para im­pedir o re­fe­rendo. Quando as urnas e cé­dulas che­gavam aos co­lé­gios, as pes­soas as pro­te­giam com os pró­prios corpos. Cen­tenas de mi­lhares de pes­soas se jun­taram nos co­lé­gios não só para votar, mas também para pro­teger com o pró­prio corpo o co­légio elei­toral em si.

A partir das 8 da manhã do do­mingo, os co­lé­gios elei­to­rais foram abertos e os po­li­ciais do Es­tado es­pa­nhol co­me­çaram a atacá-los. E aqui, como di­zemos os ca­ta­lães, fi­zemos “ce­bola”. Ou seja, todos fi­zemos uma grande bar­reira hu­mana, dando-nos os braços e, com essa pa­rede hu­mana fa­zíamos uma re­sis­tência pa­cí­fica ativa, im­pe­dindo-os de en­trar no co­légio. A re­co­men­dação era não re­vidar os golpes, mas re­sistir todos juntos aos golpes, para não en­fra­quecer a “ce­bola”. Uma ver­da­deira obra de en­ge­nharia, pois os braços dados fazem com que a pa­rede hu­mana, ou “ce­bola”, fique mais firme. Des­ven­ci­lhar-se da ce­bola para re­vidar um golpe pode en­fra­quecer a pa­rede.

Em al­guns co­lé­gios eles con­se­guiram romper a “ce­bola”. Nesses casos eles pe­garam as urnas e rou­baram-nas do povo. Mas em ou­tros co­lé­gios houve forte re­sis­tência, che­gava a lem­brar até os filmes sobre a Re­sis­tência Fran­cesa contra o na­zismo. Em al­guns lu­gares os po­li­ciais não con­se­guiram en­trar, em ou­tros as pes­soas es­con­deram as urnas de forma que não as en­con­trassem. Quando iam em­bora, os me­sá­rios pu­nham a urna no­va­mente sobre a mesa e as pes­soas vol­tavam a votar. Uma vi­tória das for­migas, dos pe­quenos re­sis­tindo com cri­a­ti­vi­dade à pressão e à re­pressão do Es­tado e dos po­li­ciais.

Assim foi das 8 da manhã até 8 da noite. A partir deste marco, co­meçou a con­tagem dos votos. Em ci­dades pe­quenas e bairros onde ti­veram de pro­teger as urnas de­pois da vo­tação, muitas vezes as le­vavam se­cre­ta­mente até a igreja local e, no meio da missa, para con­fundir os po­li­ciais, con­tavam votos. Houve gente que es­condeu urna no ele­vador, no ce­mi­tério, era a ima­gi­nação e a cri­a­ti­vi­dade co­le­tivas re­sis­tindo à re­pressão.

Isso porque ao longo do do­mingo o Es­tado es­pa­nhol pro­duziu cerca de 800 fe­ridos, dos quais quatro estão em es­tado grave. A mai­oria apenas he­ma­tomas na ca­beça, pro­duto dos cas­se­tetes dos po­li­ciais, balas de bor­racha e gás. Um ab­surdo, é claro, mas dá para lidar com isso, já sa­bíamos que o Es­tado es­pa­nhol não é muito che­gado em um diá­logo de­mo­crá­tico. Eles ata­caram mais de 60 co­lé­gios em toda Ca­ta­lunha. Rou­baram mais de 400 urnas elei­to­rais.

O re­sul­tado do re­fe­rendo tem que levar em conta que essas 400 urnas re­pre­sen­tavam 700 mil pes­soas. E di­ante da pos­si­bi­li­dade desta si­tu­ação – es­pe­ci­al­mente após as la­men­tá­veis de­cla­ra­ções de Rajoy (pre­si­dente do go­verno da Es­panha) – a Ge­ne­ra­litat (go­verno ca­talão) pre­parou o que é cha­mado de “censo uni­versal”. Ou seja, qual­quer pessoa po­deria votar em qual­quer co­légio, pois es­tavam co­nec­tados pela in­ternet. Ao votar, ano­tavam seu nú­mero de iden­ti­fi­cação pes­soal no com­pu­tador, o que im­pedia de votar em ou­tros co­lé­gios. Tudo foi feito para que a po­pu­lação pu­desse votar.

Fi­camos, no final, com dois mi­lhões e du­zentos mil votos de um total de cinco mi­lhões, mas aqui o voto não é obri­ga­tório como no Brasil, o que nor­mal­mente re­sulta em abs­tenção elei­toral. Por outro lado, ti­vemos as 400 urnas rou­badas pelos po­li­ciais. É im­por­tante in­formar que os po­li­ciais ca­ta­lães não es­tavam re­pri­mindo o re­fe­rendo: quando me re­firo à re­pressão, é ex­clu­si­va­mente sobre os po­li­ciais a ser­viço do Es­tado es­pa­nhol (*1).

Ao saírem os re­sul­tados, ob­vi­a­mente o go­verno es­pa­nhol não os re­co­nheceu. Já a União Eu­ro­peia (UE) segue fa­lando que é um as­sunto in­terno. Na minha opi­nião, es­tamos no pro­cesso de in­ter­na­ci­o­na­li­zação da si­tu­ação e temos que pedir a ne­go­ci­ação de um ter­ceiro ele­mento e exigir que a UE aja com algum bom senso nesse sen­tido, ainda que não acre­dito muito na pos­si­bi­li­dade disto acon­tecer.

Cor­reio da Ci­da­dania: Acre­dita que a forte re­pressão po­li­cial do Es­tado es­pa­nhol tenha con­tri­buído com os 90% que re­cebeu o “Sim”?

Aritz García: É muito claro que a re­pressão do Es­tado foi o que fez muita gente sair às ruas não só para votar, mas para pro­teger as urnas. Eu tenho a im­pressão de que se não ti­vesse ocor­rido ta­manha vi­o­lência, tão forte, menos pes­soas talvez te­riam saído de casa. Mas por essa tra­dição que temos na Ca­ta­lunha de de­fesa dos nossos di­reitos – é pre­ciso re­cordar os anos de 1909 e 1936 na Ca­ta­lunha e em toda nossa his­tória temos muitos mo­mentos de rei­vin­di­cação dos nossos di­reitos – foi o que nos man­teve em pé, re­sis­tindo.

Outro dado é de que 75% dos ca­ta­lães são como eu: temos ou pai ou mãe, ou ambos, não nas­cidos na Ca­ta­lunha, imi­grantes, um pouco como acon­tece em São Paulo. Isso faz com que muitos de nós não nos sin­tamos 100% ca­ta­lães. Esse é meu caso. Meu pai é basco e minha mãe é es­pa­nhola, mas eles se sentem ca­ta­lães porque en­tendem que aqui na Ca­ta­lunha eles foram bem re­ce­bidos e a cul­tura ca­talã é muito aco­lhe­dora e de­fen­sora de todos.

É se­gu­ra­mente o lugar dentro do Es­tado es­pa­nhol – e um dos prin­ci­pais da Eu­ropa – onde as or­ga­ni­za­ções civis estão mais or­ga­ni­zadas. Por­tanto, fica muito claro que a re­pressão e o des­res­peito à de­mo­cracia por parte do Es­tado es­pa­nhol fi­zeram toda essa rede so­cial (li­te­ral­mente fa­lando) que há na Ca­ta­lunha ra­pi­da­mente sair em de­fesa dos di­reitos de­mo­crá­ticos.

Cor­reio da Ci­da­dania: Pen­sando nas bases po­pu­lares da Ca­ta­lunha, qual o sen­ti­mento geral da po­pu­lação em re­lação à re­a­li­zação do re­fe­rendo e à pos­si­bi­li­dade de in­de­pen­dência do país?

Aritz García: A po­pu­lação da Ca­ta­lunha é de cerca de 7 mi­lhões de pes­soas. Deste nú­mero, pouco mais de 5 mi­lhões têm di­reito a voto: quem está acima de 18 anos. Destes, saíram a votar 2,2 mi­lhões. Desses, 2 mi­lhões vo­taram a favor da in­de­pen­dência.

Há al­guns “po­réns” aqui que pre­ci­samos re­gis­trar. Cerca de 30% da po­pu­lação nor­mal­mente não vota nunca. Como o voto não é obri­ga­tório, já é cos­tume desse setor da so­ci­e­dade não par­ti­cipar das elei­ções. São pes­soas nor­mal­mente das classes mais po­pu­lares que acabam to­cando a vida adi­ante, in­de­pen­den­te­mente de quem ganhe ou perca elei­ções.

Ou seja, te­ríamos cerca de 40% de in­de­pen­den­tistas, cerca de 20% a 30% de não in­de­pen­den­tistas e entre 30% e 40% de gente que não par­ti­cipa do sis­tema po­lí­tico. Po­demos de­se­nhar mais ou menos assim. O go­verno es­pa­nhol de­fende que se não houver um total de 51% de votos a favor da in­de­pen­dência, ela não é pos­sível.

Não con­cordo com a aná­lise do Es­tado es­pa­nhol por conta desses 30% que nunca votam. Sim­ples­mente porque a conta não fecha. Sem esses 30%, nem os pró-in­de­pen­dência e nem os con­trá­rios con­se­guiram mais de 50% dos votos na Ca­ta­lunha.

Vol­tando ao do­mingo do re­fe­rendo, ficou claro que a po­pu­lação ca­talã, ou uma boa parte dela, con­si­de­rável, está que­rendo votar. E uma das pos­sí­veis so­lu­ções caso a Es­panha não per­mita esse voto é que a União Eu­ro­peia ou a ONU ve­nham aqui e ga­rantam que esse re­fe­rendo seja feito de uma ma­neira livre de ver­dade, não como foi em 1/10, quando po­li­ciais ata­caram mais de 60 es­colas e fe­riram 800 pes­soas em suas ações vi­o­lentas di­re­ta­mente contra os co­lé­gios elei­to­rais. Mas não sei da vi­a­bi­li­dade disto, pois a UE tem dito que é um pro­blema in­terno da Es­panha, onde eles não po­de­riam in­tervir. O que é uma hi­po­crisia muito grande para uma en­ti­dade po­lí­tica que se de­fine como de­fen­sora dos di­reitos hu­manos.

Já morei no Brasil e acom­pa­nhei a re­a­li­dade das pe­ri­fe­rias e fa­velas do país. Seria le­viano da minha parte com­parar o que acon­teceu aqui com o que acon­tece di­a­ri­a­mente no Brasil. Mas para os pa­drões ca­ta­lães, é evi­dente que a vi­o­lência de do­mingo pas­sado foi algo com­ple­ta­mente fora de con­texto.

Criou-se aqui uma cul­tura de res­peito aos di­reitos hu­manos, su­pe­ramos a di­ta­dura há mais de qua­renta anos e, de­pois do seu fim, houve um tra­balho forte das or­ga­ni­za­ções de di­reitos hu­manos com os po­li­ciais, foi pos­sível ter uma po­lícia mais co­mu­ni­tária e temos avan­çado muito nesse sen­tido. É claro que ainda há muito ra­cismo po­li­cial, es­pe­ci­al­mente contra mi­grantes do Ori­ente Médio, o que não fica im­pune ao menos para os mo­vi­mentos que in­sistem nessa luta de for­ta­lecer os di­reitos hu­manos e com­bater tais ques­tões dentro da nossa po­lícia, mas para ci­da­dãos ca­ta­lães re­al­mente não tem sido muito comum apa­nhar da po­lícia nos úl­timos anos, o que fez com que a re­pressão do 1-O (re­fe­rência à data) fosse algo fora do comum.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como avalia a greve geral que ocorreu na terça-feira se­guinte ao re­fe­rendo?

Aritz García: A greve foi con­vo­cada dez dias antes, quando houve a pri­meira ope­ração po­li­cial contra o go­verno da Ge­ne­ra­litat e também contra a Cor­di­na­dora de Unidad Po­pular (CUP), que é a or­ga­ni­zação da es­querda in­de­pen­den­tista da Ca­ta­lunha. No marco desses ata­ques, os sin­di­catos mais com­ba­tivos, como a CNT e a CGT, mais pró­ximos do in­de­pen­den­tismo de es­querda (*2), fi­zeram um cha­mado de greve geral.

Acon­teceu que no do­mingo, com a re­pressão po­li­cial, todos os sin­di­catos, in­cluindo os mais mo­de­rados, jun­ta­mente com as or­ga­ni­za­ções mais à di­reita do in­de­pen­den­tismo e da As­sem­bleia Na­ci­onal Ca­talã fi­zeram um cha­mado para se in­cor­po­rarem a esta greve geral. Mas, na se­gunda-feira, quando viram que a greve seria li­de­rada por co­mitês de bairro e de grupos mais à es­querda, in­clu­sive da ra­dical es­querda in­de­pen­den­dista, fi­zeram novo cha­mado, não para somar à greve, mas para um “dia de pa­rada”. Uma forma de dizer que não existe no sis­tema ju­rí­dico es­pa­nhol e ca­talão. Isso foi pen­sado para não se falar em greve geral, porque não consta nos di­reitos pe­nais e ju­di­ciais, bus­cando uma ca­mu­flagem contra a cri­mi­na­li­zação.

Nosso ob­je­tivo com a greve foi cons­truir uma nova Re­pú­blica, que seja mais plural. Até hoje as le­gis­la­ções es­pa­nhola e ca­talã deixam a de­sejar. Por­tanto, vem daí a crí­tica a esta ati­tude dos se­tores mais mo­de­rados e à di­reita do in­de­pen­den­tismo. Na re­a­li­dade, o pro­blema para eles era que a greve saísse dos co­mitês de bairro, que são po­pu­lares, o que trouxe incô­modos a essas or­ga­ni­za­ções e sin­di­catos mo­de­rados, já que o mo­vi­mento dos bairros es­tava ga­nhando muita força e to­mando um pro­ta­go­nismo que eles que­riam para si.

Em meio a todo o con­texto, na­quela manhã de terça-feira co­me­çaram os pi­quetes. E após a re­pressão do do­mingo, ti­vemos or­ga­ni­zada uma greve geral que parou toda a Ca­ta­lunha. Na­quela manhã ainda houve uma ma­ni­fes­tação gi­gante que me lem­brou do 15M. E uma coisa que acho in­te­res­sante de chamar a atenção é de como esse pro­cesso, nas úl­timas se­manas, está com­ple­ta­mente li­gado a um pro­cesso de mo­bi­li­zação e auto-or­ga­ni­zação nos bairros, como falei no início da en­tre­vista, bem in­de­pen­dentes dos par­tidos po­lí­ticos tra­di­ci­o­nais. Uma ca­rac­te­rís­tica muito ca­talã, ou seja, mais forte na Ca­ta­lunha do que na Es­panha.

Cor­reio da Ci­da­dania: O que pensa dos lí­deres Puid­ge­mont, pre­si­dente da Ca­ta­lunha, e Jun­queras, a frente do par­la­mento?

Aritz García: Jun­queras é de um par­tido que há muito tempo não tem bons lí­deres. Puid­ge­mont também não é um grande líder, a di­fe­rença dele para Jun­queras é que chegou ao poder com al­guma ca­su­a­li­dade, mas tem feito boas ações no cargo.

Cor­reio da Ci­da­dania: Do ponto de vista po­lí­tico, como a nova dis­po­sição da Ge­ne­ra­litat e do Par­la­mento Ca­talão, após as elei­ções de 2016, pu­deram ser de­ci­sivas para a re­a­li­zação do re­fe­rendo?

Aritz García: Com o re­sul­tado das úl­timas elei­ções, a co­li­gação Junts Pel Si (Juntos pelo Sim) pre­ci­sava de três de­pu­tados para obter a mai­oria ne­ces­sária para con­vocar o ple­bis­cito. Se so­massem os 10 de­pu­tados do CUP, che­garia. Mas o CUP vendeu seu apoio a um bom preço: a saída de Mas da pre­si­dência e al­gumas leis so­ciais: de ga­ran­tias de renda bá­sica e mo­radia. Acon­tece que o Tri­bunal Cons­ti­tu­ci­onal (es­pa­nhol) sus­pendeu essas leis.

Cor­reio da Ci­da­dania: Acre­dita que um des­fecho in­de­pen­den­tista possa es­ti­mular ou­tras ini­ci­a­tivas se­me­lhantes, como no País Basco?

Aritz García: Aos bascos são abertas novas pos­si­bi­li­dades, es­pe­ci­al­mente de­pois que o ETA aban­donou as armas. Do outro lado do es­pectro po­lí­tico dentro do na­ci­o­na­lismo basco, o PNV (Par­tido Na­ci­o­na­lista Basco) *3 está em uma si­tu­ação de quase traição da causa in­de­pen­den­tista. A prin­cípio es­ta­riam dis­postos a apoiar o re­fe­rendo ca­talão, mas no fim das contas aca­baram por apoiar o Par­tido Po­pular (PP, li­de­rado pelo pri­meiro-mi­nistro Ma­riano Rajoy).

Cor­reio da Ci­da­dania: Que pers­pec­tivas de des­fecho são pos­sí­veis após as de­cla­ra­ções do rei, entre ou­tras re­per­cus­sões graúdas? Ha­verá ou não de­cla­ração de in­de­pen­dência?

Aritz García: Em 10 de ou­tubro de 2017, foi de­cre­tada a Re­pú­blica pelo pre­si­dente ca­talão Carles Puid­ge­mont, o que não sig­ni­fica a de­cla­ração de in­de­pen­dência, mas um me­ca­nismo de ne­go­ci­ação po­lí­tica do Es­tado. Ainda não dá para fazer muitos prog­nós­ticos, temos que ver quais serão os pró­ximos ca­pí­tulos e como vai acabar. O mais pro­vável é que au­mente o nível de re­pressão e tratem de im­pedir a de­cla­ração de in­de­pen­dência, mas nada é certo.

Notas
*1: Po­lícia Es­pa­nhola: ex. Guarda Civil, Po­lícia Na­ci­onal. Po­lícia Ca­talã: ex. Mossos d´Es­quadra. Houve um in­ci­dente no do­mingo em que ho­mens da po­lícia ca­talã en­traram em con­flito com po­li­ciais es­pa­nhóis. Os ca­ta­lães te­riam se re­cu­sado a acatar or­dens de re­primir o re­fe­rendo.

*2 e *3: Os in­de­pen­den­tismos basco e ca­talão são marcos nas cul­turas po­lí­ticas destas re­giões. É como se hou­vesse dois sis­temas em dis­puta: o sis­tema es­pa­nhol e o sis­tema local. Da mesma forma que o sis­tema es­pa­nhol tem um com­pleto es­pectro po­lí­tico que vai da ex­trema-es­querda, anar­quistas, re­pu­bli­canos, co­mu­nistas, passa pelos par­tidos do poder PP (fran­quista) e PSOE (pro­gres­sista), até chegar na ex­trema-di­reita re­ma­nes­cente do fran­quismo – assim o é dentro dos se­tores in­de­pen­den­tistas.

No caso da Ca­ta­lunha, a CUP e ou­tras or­ga­ni­za­ções com­põem um campo de es­querda dentro do in­de­pen­den­tismo, ao passo que ou­tras or­ga­ni­za­ções sin­di­cais e civis se co­locam à di­reita do in­de­pen­den­tismo ca­talão. No país basco ocorre o mesmo. O PNV é o par­tido à di­reita do in­de­pen­den­tismo, en­quanto a es­querda “abert­zale” (in­de­pen­den­tista, em basco) também conta com di­versos grupos, sin­di­catos e par­tidos. His­to­ri­ca­mente, o grupo basco mais fa­moso mun­di­al­mente foi o ETA, que com­punha uma es­querda mais tra­di­ci­onal mar­xista-le­ni­nista e hoje, assim como as FARC na Colômbia, aban­donou as armas.

Raphael Sanz é jor­na­lista e editor-ad­junto do Cor­reio da Ci­da­dania.
Fonte: Correio da Cidadania

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