Palácio Apostólico de Castel Gandolfo aberto ao público

Papa abre mão de passar as férias em Castel Gandolfo e o transforma em museu.

O Papa Francisco colocou mais uma pedra na construção do seu pontificado. Esta a interpretação da abertura sábado 22 de outubro, do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, residência de verão dos Papas, ao público. Um evento simbólico mais do que histórico, explicou o Diretor dos Museus do Vaticano, Antônio Paolucci.

“Dizer um evento histórico é demasiado. Um evento simbólico, sim, porque nos faz compreender muito bem qual é a filosofia, a política pastoral do Papa Francisco, isto é: abrir a todos, abrir ao povo, abrir às gentes mesmo a sua casa. É como se eu dissesse: “a partir de amanhã vinde à minha casa, vinde quando e como quiserdes…” Esta é a mensagem que o Papa dá, uma mensagem que se insere muito bem na sua pastoral, no seu modo de ser Papa”.

castelgandolfopublicoUma abertura que vem juntar-se a outras partes do Palácio já acessíveis a visitantes desde 2014/2015, nomeadamente a Galeria que, através de grandes retratos, conta o história dos Papas desde o século XVI até ao Papa Francisco; e os jardins que podem ser percorridos num pequeno comboio. Tudo coordenado pelos Museus do Vaticano, órgão encarregado da gestão dos espaços agora abertos a público no Palácio de Castel Gandolfo.

Situado 20 km a sul de Roma, na zona conhecida por “Castelli Romani”, o Palácio Apostólico de Castel Gandolfo é uma união harmoniosa de arte e natureza: à direita, as janelas dão para o Lago contornado pelos seus frondosos bosques, até o olhar se estender ao mar, e à esquerda as cidadezinhas dos “Castelli” viradas para a Via Appia, uma das, por assim dizer, autoestradas do tempo dos romanos e que de Roma levava para o sul...

A arte é a que o Papa quer agora partilhar com todos, abrindo o Palácio a quem o desejar conhecer, uma vez que ele não quer ir para ali no verão como faziam outros Papas e onde Bento XVI passou alguns meses depois da sua demissão. Os visitantes poderão percorrer no terceiro e último andar do Palácio, corredores, amplas e pequenas salas (como a Sala do Trono ou a salinha verde), com mármores polícromos e pinturas sacras, grandes bustos, bibliotecas, secretárias onde terão ganhado vida muitos textos do magistério da Igreja… até chegar ao quarto de dormir do Papa e descobrir que ali deram à luz muitas mulheres refugiadas durante a 2ª Guerra Mundial. Emocionante também ver a capela privada e o crucifixo perante o qual se ajoelharam e rezaram juntos o Papa Bento XVI e o Papa Francisco, pouco depois da sua eleição à Sé de Pedro…

A abertura do Palácio Apostólico aos visitantes de todos os quadrantes do mundo é apreciado pelos cidadãos de Castel Gandolfo que, pelo fato do Papa Francisco não passar o Verão nessa residência como faziam outros Papas, sentiam ter perdido uma parte da atração turística ao local e, por conseguinte, do ganha pão. A Presidente da Câmara, Mílvia Monachesi, vê as coisas numa ótica positiva, mas não esconde uma certa amargura…

“Trata-se, sem dúvida duma coisa muito positiva porque desde que o Papa Francisco decidiu abrir a todos estes palácios, tivemos um incremento turístico muito, muito importante. Há, portanto, um forte sentido de gratidão em relação ao Papa Francisco. Há também, sinceramente, um pouco de amargura porque continuávamos a esperar… mas isto parece ser uma escolha definitiva e isto nos preocupa e nos entristece, mas estamos felizes com a decisão que ele tomou, é como dizer, “não posso estar presente, dou-o a todos quantos o querem ver.”

Seja como for, o Papa era a alma de Castel Gandolfo e é precisamente isso que agora falta, reconhece Mílvia Monachesi:

“O que nos falta é precisamente a alma; a presença do Papa era a alma da nossa vida. Tudo se desenrolava em volta desse momento. No inverno nos preparávamos para a vinda do Papa no Verão. Isto nos falta muito. Cada um de nós tem recordações de momentos ligados à presença do Papa. Agora nos sentimos, realmente um pouco desorientados. Mas temos de olhar para a frente e estamos com o Papa, respeitamos as suas opções, mas no fundo continuamos a esperar que senão mais nos venha visitar”.

Na mesma linha da Presidente da Câmara, também o P. Pietro Diletti, Pároco da Paróquia Pontifícia de Castel Gandolfo, está feliz, mas falta-lhe a figura do Papa, diz recordando Bento XVI…

“Eu estou contente, até porque quando vinham turistas me diziam sempre: mas não se pode ver o Palácio, não se pode visitar os apartamentos? Agora, graças a Deus podem vê-los. Penso, portanto, que seja positivo, até porque estão a vir muitos grupos, mais do que quando estava o Papa, precisamente porque foram abertos o Palácio e as vilas, isto é um bem e comporta para mim mais missas do que antes, porque vêm grupos de várias partes e dizem missa na nossa paróquia. Há mais vitalidade, acolhimento, isso sim.É claro, sente-se um pouco a ausência do Papa, porque tinha-se criado realmente uma grande união. Eu, com Bento XVI ia, por vezes, às refeições… estávamos juntos… tenho saudades!”…

Resta, portanto, nos castelanos um velado desejo de que um dia essa decisão do Papa Francisco seja de algum modo revogada, algo que o historiador Sandro Barbagallo, ligado aos Museus do Vaticano, não descarta pois, em 1709 o Palácio de Castel Gandolfo foi declarado Vila (Vivenda) Pontifícia e essa decisão não foi abolida pelo Papa Francisco. Ele limitou-se a autorizar a sua abertura ao público. Barbagallo explicou ainda que dos 35 Papas do tempo de Castel Gandolfo, apenas 15 serviram dele como residência de Verão. Dentre eles Pio XII e Paulo VI que, aliás, ali faleceram. Barbagallo recordou ainda que de 1870 (ano da unificação da Itália com o cancelamento do Estado Pontifício) até ao Pacto Latarense de 1929, o Palácio ficou praticamente abandonado.

Agora esta área de 55 hectares (a Cidade do Vaticano tem apenas 44) com diversas vilas, jardins e áreas agrícolas, vai ter uma nova vida, uma nova etapa na sua longa história iniciada em 1623 quando o Papa Urbano VIII deu inicio à sua construção. Uma nova página que se inscreve na linha da interculturalidade, ou melhor, da diplomacia cultural, desta feita com a China, presente na inauguração através dum belo concerto de música popular e da Opera Mundi, escrita pelo Mestre Cui Zimo. Ele tinha previamente encontrado o Papa Francisco em Santa Marta. “O encontro de mãos – disse – que houve entre nós é um encontro de corações e se o vínculo é o amor misericordioso, então pode envolver todos os homens e todas as nações”. Enquanto 7 jovens chinesas cantavam e tocavam a opera nesse concerto intitulado no conjunto “A beleza nos unirá”, o Mestre Cui Zimo, pintava com tinta preta numa tela branca sobre uma grande mesa diagramas chineses a exprimir esse espírito, essas palavras de união e da beleza que unirá os povos.

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