Luzes e sombras

Selvino Heck *

Setembro chegou, agosto, o mês do desgosto e do cachorro louco, foi-se felizmente. Mas as sombras, por vezes mais que as luzes, permanecem, no mundo, na América Latina e no Brasil.

6set2015---homem-passa-por-um-grafite-que-retrata-o-menino-sirio-aylan-shenu-3-encontrado-morto-em-uma-praia-na-turquia-em-muro-na-cidade-de-soro(1)Crescem o ódio, a intolerância as perseguições, as guerras. A imagem do menino sírio AylanShenu, com o rosto enterrado na areia do Mar Mediterrâneio, é um soco no estômago. As migrações de milhares de pessoas vagando pela Europa demonstram a falência de um modelo de desenvolvimento, senão de civilização. Lembram, em pleno século XXI, as tragédias de séculos atrás, quando multidões vagavam de país a país, sem chão nem terra, ou eram expulsos para outros continentes, quando não vendidos escravos, como aconteceu com os povos africanos.

Na América Latina, um presidente, da Guatemala, acaba de ser preso, acusado de corrupção. Em vários países, háprenúncios de golpes, ameaças à democracia, instabilidades forjadas pelo capital e pelo direitismo político latino-americano conhecido. Os ventos progressistas e democráticos das últimas décadas estão em xeque. Quando os últimos da história começaram tomar as rédeas do poder, quando os de baixo finalmente mostraram sua força no continente historicamente subalterno, as forças da reação e do conservadorismo não só esperneiam, mas querem de qualquer forma e sob quaisquer métodos reocupar seu espaço histórico e manter seus nacos de renda, riqueza e poder, aliás, nunca efetivamente perdidos.

No Brasil, o golpismo ataca a democracia e a soberania popular do voto. Os mesmos de sempre - é bom não esquecer 1954 ou 1964, para ficar em apenas dois acontecimentos da história, entre outros tantos - dizem ‘Basta!', ou escrevem ‘Última chance', como sentencioueditorial de um jornalão, como se fossem os donos da vida, como se continuassem mandando e dando a última palavra, como se ditassem a história.

Tempos urgentes, tempos perigosos. Onde estão as luzes que poderão ajudar a enxergar os caminhos e iluminar o futuro?

O papa Francisco, a voz da razão e da sabedoriana quadra deste século, está em visita a Cuba e aos EUA ediscursará na ONU.Falará das mudanças climáticas e da sua proposta de ecologia integral, exposta e proposta na encíclica LaudatoSí'. Mas ele certamente não esquecerá dos pobres do mundo que vagueiam e morrem pelos mares ou são trancados nas fronteiras, e pedirá aos mais ricos clemência e tolerância, conclamando a gestos concretos, à luz do exemplo do Vaticano que acolheu famílias de refugiados em seu espaço mínimo. Clamará contra as injustiças que o acúmulo de dinheiro produz. Pedirá paz.

No Brasil, em 5 de setembro, em Belo Horizonte, reuniram-se representantes de sindicatos,movimentos sociais, partidos políticos, intelectuais e entidades estudantis para o lançamento da Frente Brasil Popular, uma coalizão que pretende configurar um novo bloco político e social no campo da esquerda brasileira.

O presidente da CUT/RS, ClaudirNéspolo (ver em www.sul21.com.br), fala daFrente, cujo objetivo estratégico é a formação de um novo bloco de poder no país: "A formação de um bloco de poder éuma necessidade ditada pela atual conjuntura, onde vemos uma grande ofensiva do grande capital e dos setores conservadores sobre direitos e conquistas construídas nos últimos anos no Brasil e na América Latina. Isoladamente, nenhuma organização consegue impor uma hegemonia na sociedade dentro de um regime democrático."

O tempo se move, contudo e portanto. A eleição de Jeremy Corbyn, novo líder do histórico Partido Trabalhista inglês, sinaliza, assim como o vêm fazendo o Siryza grego,o Podemos espanhol,que o neoliberalismo tatcherista não ganhou definitivamente a guerra nem foi o fim da história. As forças progressistas e democráticas brasileiras re-unem-se para conter recuos e manter conquistas, e, principalmente, afirmar e consolidar a democracia e lutar para que os ventos da mudança e da justiça social não sejam apenas um breve ar fresco na história de dominação.

Pode haver, aparentemente, mais sombras que luzes. Nas palavras deAntônio Bispo dos Santos, oNêgo Bispo, líder quilombola, em Seminário promovido pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC) em Porto Seguro, Bahia, é preciso promover o saber orgânico, que é convergente, e não o saber sintético, que éexcludente. Ou seja, as luzes são mais fortes que as sombras.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

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