Bento XVI: papa e servo na vinha do Senhor

Geraldo Trindade *

Agora com a Sé de Roma vacante, a Igreja Católica experimenta, após anos, a sensação de ter um papa emérito, enquanto se espera um conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice. Para meu espanto a grande mídia cobriu com avidez esta troca na suprema hierarquia da Igreja Católica. Primeiro, pode ter sido por interesse, por garantia de ibope; mas também não descarto que, por mais que se tente apagar, o papa representa valores e posturas morais porque não age, não se pronuncia e não se porta ao sabor das ondas, mas a partir, invariavelmente, do Evangelho. O título que é concedido ao papa de vigário de Cristo, simboliza muito bem que na terra ele faz a ponte com o sagrado, com o divino. Viver e pautar-se pelo Evangelho é um dos grandes convites que um papa faz a toda a humanidade e isso sempre chamará a atenção do mundo.

Bento XVI esteve à frente da Igreja num período de drásticas mudanças no mundo e no cristianismo. Ele se esforçou para tornar a fé mais clara e inteligível para que assim fosse abraçada com certeza e convicção vital. Lutou para que os esforços burocráticos, pastorais e evangelizadores da Igreja não perdessem o seu foco - Cristo. Sempre convidou todos os católicos a terem Jesus como centro da vida cristã. Quando se perde o sentido referencial, que é Cristo, a Igreja corre o risco de tornar-se tudo, menos o corpo de Cristo, que traduz no mundo os valores pregados e vividos pelo Verbo encarnado.

No dia 19 de abril de 2005, o cardeal Ratzinger aparecia na sacada de São Pedro como novo papa sob o nome de Bento XVI e dirigindo-se à multidão reunida disse: "depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes". Colocou-se humildemente como servo do Senhor.

Muitas vezes o servo é dispensável, a gosto do Senhor. Agora, surpreende-nos com a sua despedida serena, de fato, como um servo que fez o que deveria fazer e que não fica a aguardar a recompensa de seu patrão. Na noite do dia 28 de fevereiro se despediu do mais alto posto da Igreja Católica com as singelas palavras, porém, não menos profundas de que "sou simplesmente um peregrino que inicia a última etapa de sua peregrinação nesta terra. Mas gostaria ainda com o meu coração, com o meu amor, com a minha oração, com a minha reflexão, com todas as minhas forças interiores, de trabalhar em prol do bem comum e do bem da Igreja e da humanidade. E me sinto muito apoiado pela simpatia de vocês. Sigamos adiante com o Senhor para o bem da Igreja e do mundo".

O cardeal Ratzinger viveu o pontificado não aprisionado a moldes ou pressões, mas soube interpretá-lo e dar-lhe uma nova configuração. Se ele não tinha o trejeito com o público como seu antecessor, mas teve e tem a capacidade de refletir com profundidade e originalidade, ao mesmo tempo, entende que o seu papel como papa não se restringe a grupos seletos, mas como ele mesmo disse em sua última audiência: "o Papa nunca está sozinho, pude experimentá-lo agora mais uma vez e duma maneira tão grande que toca o coração. O Papa pertence a todos, e muitíssimas pessoas se sentem estreitamente unidas a ele".

Agora, o papa emérito descansa, pois completou suas atividades às 20h00 do dia 28 de fevereiro, mesma hora em que encerrava seu expediente de trabalho, como um servo que se coloca à disposição de seu amo; assim, mais uma vez Bento XVI dá o exemplo de levar a bom termo a sua missão, pois a Igreja não é dos homens, mas de Cristo. Resta a cada batizado abraçar Cristo e por consequência a missão com o intuito de deixar com que a fé entranhe até as profundezas da existência humana.

"Deus guia a sua Igreja; sempre a sustenta mesmo e, sobretudo, nos momentos difíceis. Nunca percamos esta visão de fé, que é a única visão verdadeira do caminho da Igreja e do mundo". (Bento XVI, papa emérito)

* Geraldo Trindade é seminarista da diocese de Mariana, MG.

Fonte: Geraldo Trindade / Revista Missões

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