Organização Social em Rede: um desafio e caminho para as lutas no Século XXI

Jardel Neves Lopes *

A sociedade civil organizada, ou seja, grupos organizados a partir de vários segmentos na sociedade buscaram sempre meios para a transformação social, a partir de denúncia e anúncios. Na perspectiva da conquista de seu espaço com liberdade de expressão e participação, somam-se vários anos de intensa luta de movimentos sociais organizados no Brasil. Essa movimentação histórica dos movimentos tem-se um único objetivo: a construção de um projeto popular, uma sociedade pensada a partir do povo e pelo povo.

No Brasil essa luta teve inicio primeiramente com os índios a partir da resistência aos estrangeiros que chegaram ocupando de forma violenta o espaço desse povo que já pertencia essa terra e, conseqüentemente a violação dos seus direitos de crenças e manifestações religiosas. Na sequência esse movimento tomou outro corpo com a luta e resistência dos negros, contra a violência brutal a suas vidas escravizadas, surradas, criminalizadas, desumanizadas de forma social e religiosa. Mas, a força da vida contra a crueldade é maior, e esses mostraram resistentes, fortes e, sobretudo desobedientes e indignados, começaram a sambar a revolta e se organizarem contra o sistema. Buscaram todas as formas de organização independente do tempo e da distância.

Essa movimentação contrária a uma ordem européia, cristalizada, que visava apenas o lucro, a submissão e exploração violenta dos recursos humanos e naturais, se fortaleceu com luta dos negros e a partir daí vieram também outras categorias da sociedade. Numa perspectiva de resistir aos projetos geradores de morte, desigualdade e geração de riquezas para poucos, enquanto a maioria passava fome e tantas outras necessidades humanas e sociais. Muitos movimentos foram feitos. Muitos grupos organizados surgiram. Muitos morreram lutando por essas causas que provocaram mortes para muita gente (e continuam provocando).

No Brasil, mais historicamente nossos idosos de hoje e alguns adultos vivenciaram momentos de repressões, ditaduras, militarismo, e por isso muitas mortes e desaparecimentos de pessoas. Por outro lado, muitos vivenciaram momentos de muita dor, fome, secas, doenças, mortalidade infantil e materna, conseqüência de uma política pensada e executada por e para poucos - os mais ricos. O advento de muitos movimentos e organizações dessa época proporcionou novos olhares. Muitos sonhos, utopias, de uma sociedade de igualdade, de uma política democrática, na perspectiva de dar ao povo vez e voz. Muitas foram as vidas ceifadas pelo sistema opressor.

A essas organizações é que chamamos de sociedade civil organizada. E por isso, muitas também foram as conquistas, desde a Constituição de 1988 que afirma "todo poder emana do povo e para o povo" (art. 1º, Título I da CF 1988), na qual garante a participação do povo, a partir da democracia. Quem acompanha a historia do Brasil sabe a grande relevância do sistema democrático, que permitiu outras classes sociais se fazerem parte da política de gestão pública do país. Tais organizações como, sindicatos, Pastorais, Associações, Estudantis, Trabalhadores, Juvenis, Culturais, Negros, Mulheres, Indígenas, Sem Terras (e tantos outros), se uniram forças e lutaram juntos (em diversos segmentos) por muito tempo. E colheram e a sociedade continua colhendo frutos dessa articulação organizada. Um operário e uma mulher ocuparam o cargo de presidência do Brasil (fatos históricos), oriundos dessas organizações em parcerias. Mudanças apontaram novos horizontes a partir desse agir em parcerias, jornadas de lutas comuns. Reconheceram e tenta-se pagar a dívida com os Negros por meio de programas específicos e leis para garantir sua integridade e respeito. Com os Índios, mulheres, trabalhadores, pobres e tantos outros grupos desprotegidos e desfavorecidos. Alguns programas governamentais tentam dar conta daquilo que por séculos o sistema (e o governo) excluiu (e continua excluindo).

A vida agora é respaldada por direitos que tentam favorecer os menos favorecidos, econômico e politicamente. Porém, muitos continuam e novos desafios surgiram e junto com esses, novos grupos organizados da sociedade civil (LGBT, povo em situação de rua, fóruns, MAB, ambientais e tantos outros do campo e da cidade) para empoderamento e incidência na busca da efetivação de seus direitos a qualidade de vida.

As conquistas não chegaram a todos, mas elas podem chegar a todos. Já se viu que é politicamente possível e economicamente viável, uma sociedade igualitária e que garanta a todos, os direitos básicos para o desenvolvimento integral do ser humano. Para isso, é necessária a organização não somente de partes da sociedade civil, mas de toda ela. O Brasil é muito grande e o sistema político-econômico também. É preciso fazer valer, pelo próprio povo o que a constituição referenda: poder ao povo!

As parcerias entre as organizações e movimentos na construção de um poder popular, que funcionou e apontou novos horizontes para a política no Brasil nas ultimas décadas, hoje é desafiada a encontrar outras formas de articulação e metodologia de trabalho. Por isso, fala-se da organização em rede e nessa direção caminha o Fórum Social Mundial (FMS), no qual se congrega vários países, diversas organizações com o objetivo de somar forças políticas sem perder a identidade institucional construída ao longo da historia de protagonismo, profetismo e transformação social.

Da organização de grupos desde os negros, ainstitucionalização de entidades, e aconstituições de parcerias institucionais, somos desafiados a desenvolver o trabalho em rede, por meio de uma metodologia adequada aos novos tempos e tecnologias. O trabalho em Parcerias não funciona mais de modo a avançar politicamente, pois à medida que as organizações criam raízes, essas constituem demandas internas, próprias de cada grupo. Para avançarmos politicamente, faz-se necessário, fortalecer-nos com os demais organismos que lutam pela mesma causa - direitos humanos e planetário (ambientais e animais).

A rede nessa linguagem traz o sentido figurado mesmo da própria rede material (tecida de fios), a qual os fios se encontram e os nós unem e se fortalecem cada vez mais nas articulações, constituindo um novo formato de organização, de liderança, sem a hierarquização demasiada e com facilidades de trabalhar com os egoísmos próprios de alguns seres humanos. O trabalho em rede não é a aproximação dos se identificam, mas a articulação e união dos que se aproximam.

As demandas históricas continuam: das populações encarceradas, analfabetos, periferias, empobrecidos, desempregados ou em trabalho informal a maioria é negra; as aldeias indígenas que restam ainda são atacadas e tomadas suas terras; mulheres ainda são espancadas; crianças ainda vivem fora da escola e com seus direitos sendo violados; pessoas ainda morrem por falta de atendimentos médico; comunidades economicamente vulneráveis são criminalizadas pela condição social que vive; pessoas são assassinadas e desrespeitadas por causa da orientação e opção sexual que vive; jovens são assassinados por falta de políticas especializadas para essa faixa etária. Essas e muitas outras são bandeiras não mais especificas de um grupo, mas de todos. Nesse caso, o todo é muito mais que a soma das partes, mas a integração das partes numa co-relação de forças pelo todo.

O Fórum Social Mundial entre os países é um dos exemplos que nos aponta esse trabalho e com ele acreditamos e profetizamos de que Outro Mundo é Possível e Acontece. Outra política é possível, outra economia é possível, outros conceitos são possíveis, outras relações sociais, etc. Não somente é possível, como é necessário, pois esse sistema que rege a sociedade atual, não se sustenta nem politicamente, nem economicamente e nem ecologicamente. Resquícios de séculos de história repressora e preconceituosa, ainda prevalecem, porém o Brasil que queremos é um país de todos, com igualdade social, como dizia Zilda Arns "O mundo não será melhor se todos ficarem ricos, mas será melhor se todas as pessoas crescerem em igualdade" e respeito à diferença cultural. "Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres" (Rosa de Luxemburgo).

* Jardel Neves Lopes é Coord. do Centro de Formação Santo Dias (Past. Operária), Agente de Past. na Rede Marista de Solid. (ProAções-APC), Consagrado na Irmandade do Servo Sofredor, Integ. do Coleg. das CEBs da Arquid. de Curitiba e Artic. da Rede de Integ. das Entidades da
Adital

Fonte: www.adital.com.br

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