Cárcere privado

Egon Heck *

Expectativa e apreensão. A comissão de solidariedade à comunidade de Ypo'i, havia se preparado para essa missão de humanidade a uma comunidade indígena sitiada e privada de seus direitos básicos à alimentação, saúde e livre locomoção. Afetados por diversos problemas como crianças doentes, mulheres grávidas necessitando de atenção médica especial, e principalmente passando fome, os Guarani aguardavam a comissão que seria acompanhada pela Funai, com muita ansiedade e esperança.

A comissão integrada por membros do Conselho da Aty Guasu Kaiowá Guarani, por representante da Comissão Nacional de Política Indigenista, por representantes da Survivel Internacional, da Inglaterra, membros da aldeia de Arroyo Korá, município de Paranhos e representantes da Campanha Povo Guarani Grande Povo-Cimi, se preparara com muito afinco e carinho para essa difícil e quase impossível missão humanitária. Encima da hora da viagem, dia 11 de outubro, foi comunicado pela Funai de que ela não iria integrar a comissão pelas experiências negativas, como ameaças já anteriormente sofridas por membros do órgão. Na mesma ocasião se colocou à disposição de levar alimentos, caso a comissão fosse autorizada a entrar na área pelo senhor Firmino Escobar, da fazenda São Luiz.

Dirigindo-se ao local, na fronteira com o Paraguai, há mais de 350 km de Campo Grande, uma delegação integrada pelos indígenas e membros das entidades foi dialogar com o sr. Escobar com o intuito de que essa abrisse o portão para a visita à comunidade e desse entrevista expondo as razões de sua atitude de impedir qualquer acesso à comunidade acampada do Ypo'í.O que ouviram aos gritos e com rispidez foi que não autorizaria ninguém a entrar no portão para chegar até a comunidade. "Só entra aqui se tiver ordem judicial...Entrevista só vou dar depois da audiência-julgamento depois do dia 20 deste mês, em Ponta Porá" . Em tom ameaçador asseverou "conforme o resultado vai ter guerra".

Diante da frontal e irredutível negativa, nada mais restou à comissão de solidariedade humanitária, do que retornar as suas aldeias e cidades e denunciar ao mundo mais essa agressão à comunidade de Ypo'í que havia feito o convite e esperado ansiosamente a visita. Continuava o cerco e o que havia sido tipificado como "cárcere privado.

O fio de esperança que nos alimentava se esvaiu. Sentindo a porteira do diálogo totalmente fechada, com o coração apertado e a revolta contida, imaginamos o que estariam sentindo os Guarani, distantes daí há menos de mil metros. Lamentamos que a grave violação dos direitos da comunidade seja escudada pela irresponsabilidade de governos que criaram essa situação concedendo títulos de propriedade sobre terras tradicionais indígenas. Com o agravante de injustificável morosidade na identificação e demarcação das terras dos Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul.

Energia contagiante
A Comissão de solidariedade e compromisso com os direitos indígenas visitou outras aldeias/acampamentos ä beira das estradas. Foram momentos de imensa alegria e beleza. Gratificante. É difícil entender de onde esse povo consegue tamanha força, amor pela vida, espírito de luta e alegria, em meio às situações mais adversas, precárias e violentas. Talvez só seja possível entende-lo quando compreendermos sua espiritualidade e sabedoria secular.

As comunidades de Laranjeira Nhanderu e Kurusu Ambá, amadurecidas na dura luta nesses últimos anos, nos dão uma mostra insofismável de que é possível e urgente mudar esse mundo, construir uma nova sociedade. A comunidade de Itay Ka'aguyrusu, que há pouco mais de um mês voltou a seu território tradicional, já enfrentou muita violência e a queima de seus barracos. Mas ali estavam trabalhando na reconstrução de seus barracos e organizando a esperança e firme determinação de conquistarem seu direito à sua terra.

Para nós da comissão ficou a certeza de que o povo Guarani, de tantas lutas heróicas na história de Abya Yala-Amerindia, tem um longo e difícil caminho da reconquista de suas terras e direitos, pela frente. Porém estão munidos pelo que existe de mais sagrado e profundo: o amor pela vida, pela pachamama-mãe terra, e uma espiritualidade que lhes permite atravessar esse mar de violência, discriminação e destruição.

* Egon Heck, assessor do Cimi MS. Campanha Povo Guarani Grande Povo.

Fonte: Cimi MS

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