Ambiente por inteiro (estragado)

Egon Heck *

O Ministério Público e IBAMA continuam recebendo denúncias das comunidades Guarani, sobre a destruição do pouco de mata que resta em suas terras em regularização. A comunidade de Nhanderu Marangatu, município de Antonio João, tem registrado várias denúncias de que estão sendo derrubado partes da mata que ainda existe na região, e a retirada de toras de madeira. A comunidade de Jatawari, município de Ponta Porã, cercada e espremida pela cana, com a construção de uma usina de etanol, da Bunge, nas mediações, tem registrado denúncia da derrubada do pouco da mata que resta nas proximidades da aldeia. E assim poderíamos citar inúmeros casos de agressão ao que ainda sobrevive da mata atlântica e serrado na região de fronteira (em vários municípios o que resta de mata nativa não passa de 2 ou 3%, quando por lei no mínimo deveria ser de 20%) Isso sem falar da grande devastação que o agronegócio brasileiro está fazendo no lado do Paraguai. Como diria o líder Kaiowá Guarani, Anastácio Peralta "É lamentável conviver com uma sociedade onde o boi vale mais que uma criança, um pé de soja vale mais que um pé de cedro, assim por diante".

Os inundados pela soja, boi e cana
Os Kaiowá Guarani assistem perplexos a inundação (destruição) dos restos de seus territórios tradicionais, por um mar incontrolável de soja e cana. Valdelice Kaiowá, em recentes debates em São Paulo não se cansou de denunciar esse trágico avanço da monocultura concentradora de terra e riqueza, em curso no Mato Grosso do Sul "Estão implantando 60 usinas de açúcar e álcool, e quase todas elas em nossas terras tradicionais. Como vamos ficar, alagados por essa fúria?"

Uma observação curiosa que denuncia a atual situação de destruição do meio ambiente é o grande número de pássaros que vão para as cidades, na medida em que seu ambiente, a floresta é devastada. As cidades passam a ser o único refúgio, onde continuam a existir árvores que as abrigam. Parece que não apenas as pessoas são expulsas do campo pela monocultura mecanizada do agronegócio, mas também as aves, as árvores...

Neste dia mundial do meio ambiente, resta-nos chegar a alguma aldeia, sentar em cima de um vasilhame de veneno, agora transformados em assentos, olhar ao redor o mar de terra nua, com algumas minúsculas ilhas onde só cabe a placa "aqui existiu uma floresta". O que nos dirão nossos filhos e netos ao sentirem os efeitos danosos da irresponsável devastação e desequilíbrio ecológico, das águas poluídas, do solo amordaçado, da cobiça desenfreada?
Quem sabe a regularização das terras indígenas Kaiowá Guarani possa ajudar a salvar um pouco do que resta de floresta e iniciar o caminho da volta, da recuperação ambiental, do respeito à Mãe Terra.

E neste aspecto certamente estaremos somando com todos aqueles que sentem que "Agora, urge a consciência de que a crise ecológica é, antes de tudo, expressão de determinado modo produtivo da sociedade industrial, em vias de esgotamento. Por isso, insistir teimosa e cegamente no produtivismo econômico é ameaçar toda a vida da e na Terra, incluídos os seres humanos, colocando em grave risco a vida das gerações futuras. É impossível evitar uma catástrofe climática sem romper radicalmente com os métodos e a lógica econômica que reinam há 150 anos e vai na contramão do paradigma da complexidade".(Ir. Delci Franzen - 2ª Assembleia Popular - maio 2010) Nesta mesma direção constata "ressurgem na América Latina tensões próprias de épocas passadas: os povos indígenas negando-se a aceitar a submissão, a usurpação de seus territórios e a estar disponíveis como servos ou escravos dos dominadores tradicionais e grandes proprietários de terras e todos que concentram riqueza de toda espécie comportando-se como colonizadores, tentando manter e continuar impondo sua cultura "superior" e seu direito de continuar apropriando-se de mais terras e mais riqueza, com "veias abertas" globalizadas, neoliberais, a serviço e participando dos lucros dos novos senhores da Terra."(idem)

Neste dia mundial do meio ambiente resta-nos mais do que a indignação por um passado destruidor, o compromisso de urgente transformação desse paradigma produtivista-consumista e a luta por uma outra economia (da solidariedade e reciprocidade), a ser construída com os povos e sabedorias ancestrais e futuras. com um novo estilo de vida, de compreensão de bem viver e relações com o a natureza, com a mãe terra, enfim uma outra civilização.

Mais do que plantar uma árvore, hoje é o dia de lançar ao duro solo da terra arrasada milhões de sementes que se multipliquem como sonhos libertos que povoam nossos anseios por uma sociedade que volte a fazer as pazes com as vidas ameaçadas e com o planeta Terra.

* Egon Heck, Movimento-Campanha Povo Guarani Grande Povo.

Fonte: Cimi SP

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