??A esperança não decepciona?? (Rm 5,5)

Francisco Guerra *

É interessante a linguagem dos bispos latino - americanos no documento conclusivo da V Conferência em Aparecida, em Maio de 2007, quando escreveram sobre os dependentes de drogas. Assim expressaram:

"O problema da droga é como mancha de óleo que invade tudo. Não reconhece fronteiras, nem geográficas, nem humanas. Ataca igualmente a países ricos e pobres, a crianças, jovens, adultos e idosos, a homens e mulheres. A igreja não pode permanecer indiferente diante desse flagelo que está destruindo a humanidade, especialmente as novas gerações. Sua tarefa se dirige em três direções: prevenção, acompanhamento e apoio das políticas governamentais para reprimir essa epidemia. Na prevenção, insiste na educação e nos valores que devem conduzir as novas gerações, especialmente o valor da vida e do amor, a própria responsabilidade humana dos filhos de Deus. No acompanhamento, a igreja está ao lado do dependente para ajudá-lo a recuperar sua dignidade e vencer essa enfermidade. No apoio à erradicação da droga, não deixa de denunciar a criminalidade sem nome dos narcotraficantes que comercializam com tantas vidas humanas, tendo como objetivo o lucro e a força em suas mais baixas expressões.

Na América Latina e no Caribe, a Igreja deve promover luta frontal contra o consumo e tráfico de drogas, insistindo no valor da ação preventiva e reeducativa, assim como apoiando os governos e entidades civis que trabalham neste sentido, exortando o Estado em sua responsabilidade de combater o narcotráfico e prevenir todo tipo de droga. A ciência tem indicado a religiosidade como fator de proteção e recuperação importante para o usuário de drogas. Denunciamos que a comercialização da droga se tornou algo cotidiano em alguns de nossos países devido aos enormes interesses econômicos ao redor dela. Conseqüência disso é o grande número de pessoas, em sua maioria crianças e jovens, que agora se encontram escravizados e vivendo em situações muito precárias que recorrem à droga para acalmar sua fome ou para escapar da cruel e desesperadora realidade em que vivem.

É responsabilidade do Estado combater, com firmeza e com base legal, a comercialização indiscriminada da droga e o seu consumo ilegal. Lamentavelmente, a corrupção também se faz presente nessa esfera, e aqueles que deveriam estar na defesa de uma vida mais digna, às vezes fazem uso ilegítimo de suas funções para se beneficiar economicamente. Estimulamos todos os esforços que se realizam a partir do Estado, da sociedade civil e das igrejas em acompanhar essas pessoas. A Igreja católica tem muitas obras que respondem a essa problemática a partir do nosso ser discípulos e missionários de Jesus, embora ainda não de maneira suficiente diante da magnitude do problema. São experiências que reconciliam os dependentes com a terra, com o trabalho, com a família e com Deus. Merecem especial atenção, nesse sentido, as comunidades terapêuticas, por sua visão humanística e transcendente da pessoa."

Assim conclui o texto do documento quando fala dos Rostos Sofredores Que Doem em Nós. E é exatamente aí que eu queria chegar, para retornar ao ponto inicial do texto: "a esperança não decepciona."

Um diálogo que abriu propostas e estabeleceu parcerias
Nos meus quase sete anos de trabalho pastoral em Itabira - MG, especialmente na Catedral Diocesana, uma das minhas preocupações pastorais acabaram voltando-se para os dependentes químicos e suas famílias, a princípio, não por uma escolha minha, mas por uma cruel imposição da realidade, conforme foi mencionado até agora. Por muito tempo, apoiado pelos meus agentes de pastoral e pelo prefeito João Izael, por quem sempre nutri grande respeito e freqüentes diálogos sobre o futuro de Itabira e outras questões sérias da sociedade, eu encaminhava os dependentes, cujos familiares me procuravam, para a Clínica Rios de Água Viva, em Ipatinga, cidade onde exerço meu ministério sacerdotal hoje.

Sendo Itabira uma cidade pólo, depois de muito diálogo chegamos à conclusão que a escola nota dez representava a prevenção para que as novas gerações não cometessem delitos ou enveredassem para o mundo da droga e a nova cadeia era, uma forma justa de reparação dos danos causados por aqueles que cometeram crimes. Faltava então um instrumento para a cura daqueles que já estavam caídos e feridos pelo vício das drogas. Aqui é bom lembrar que o dependente de drogas transforma pelo menos mais cinco pessoas do seu convívio em co-dependentes: ou seja, todos ficam doentes com o dependente.

Alargamos o diálogo e formamos uma parceria com a prefeitura que doou o terreno, com apoio integral da câmara de vereadores, com os Bretas na pessoa de Estevão e Dola. Tínhamos pressa, mas apressado mesmo foi o Estevão Bretas que viabilizou rapidamente um diálogo com o Frei Nélson Giovaneli e com o Frei Hans Stapel, fundador das inúmeras FAZENDAS DA ESPERANÇA espalhadas por vários países, profunda é a amizade dos dois. O entusiasmo deles não nos deixou parados. Assegurado o recurso econômico pelo Estevão, foi feito todo o processo jurídico de doação e no próximo dia 18 de julho será a inauguração da Fazenda da Esperança no Município de Itabira.

Neste próprio site, defatoonline, você pode conferir como foi feita toda essa trajetória. Em Itabira - MG o nome e endereço são: Fazenda Nossa Senhora das Graças.Zona Rural - Fazenda do Barbosa - CEP: 35900906. Você pode falar com Valéria pelo (31)3838-1235 ou com Letícia 3831-6687 ou acessar: itabira.m@fazenda.org.br

Fazenda Esperança: Internação e recuperação
"Em cada fazenda são acolhidos dependentes de drogas, de álcool e de tantos outros tipos de vícios, com idade de 15 a 45 anos, os quais desejam se recuperar. Nesse caso, o candidato a uma vaga deve dar o primeiro passo, escrevendo uma carta de próprio punho, manifestando os motivos de sua vontade de mudar de vida. Respondemos explicando os procedimentos e regras a serem adotados para se tratar em uma de nossas comunidades.

A seleção para o acolhimento é feita por uma entrevista com a equipe de coordenação, momento em que se verifica, principalmente, a disposição pessoal e livre de se recuperar. É um programa de recuperação de doze meses, baseado no trabalho, como fonte de auto - estima e de auto - sustento, e na vida em comunidade respeitando o espaço do próximo, como instrumento de mudança de valores sob a luz da espiritualidade do Evangelho, com moral e princípios, levando a uma alteração de mentalidade e princípio." Tudo que se refere à Fazenda da Esperança você pode acessar WWW.fazenda.org.br

De Fazenda Esperança à Família da Esperança
"Os primeiros passos para o nascimento da Família Esperança, hoje com mais de 50 fazendas no Brasil e fora do País, foram dados em 1983, quando Nélson Rosendo, orientado por Frei Hans Stepal a viver a palavra de Deus concretamente, aproximou-se de uma esquina na cidade de Guaratinguetá - SP, onde os jovens vendiam e consumiam drogas. Com o passar dos tempos, a comunidade terapêutica entendeu que sua finalidade principal deve ser a vida que se origina da vivência do Evangelho pelos membros da comunidade nova, reconhecida e aprovada pela Igreja católica, nomeada de Família da Esperança.

A Fazenda da Esperança acolhe todas as pessoas, independente do estado de vida; solteiro, casado, viúvo, sacerdote Diocesano, religioso etc, que se sintam atraídas pelo carisma da comunidade. Enraizada desde o berço na Igreja Católica, a comunidade terapêutica também abriga pessoas de outras convicções religiosas que desejam propagar o amor." Finalizo essa matéria com o mesmo espírito que me motivou o título: "A Esperança não decepciona, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que no foi dado."(Rm 5).

* Padre Francisco Guerra é Vigário Geral da Diocese de Itabira- Coronel Fabriciano, MG.

Fonte: Francisco Guerra

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