Mobilização Indígena na Grande São Paulo

Beatriz Maestri e Vanessa Ramos *

Para dar maior visibilidade aos indígenas que vivem na cidade, promover sua cultura e tradições diferenciadas e sensibilizar a sociedade e os órgãos públicos sobre a realidade em que vivem, o Cimi em São Paulo, em parceria com a Pastoral Indigenista, vem promovendo, há vários anos, a Semana dos Povos Indígenas na Grande São Paulo, incidindo no mês de abril, em consonância com as demais regiões do país.

Osasco
Na cidade de Osasco, município da Grande São Paulo, vivem diferentes etnias. Apenas neste município, vivem hoje, aproximadamente, 38 famílias Pankararé, em média 200 indígenas que têm se organizado e buscado apoio junto ao poder público local para viabilizar a garantia de seus direitos.
No município, a Semana já está em sua quarta edição e conta com o importante apoio de um Grupo Intersecretarial para a sua preparação.

De 15 a 29 de abril, foram realizadas palestras envolvendo professores e alunos da Rede Municipal de Ensino, seminários com a população em geral, no Centro Público de Economia Solidária e no Centro Universitário Fieo (UNIFIEO), mostras de vídeos indígenas, exposição e comercialização de produtos indígenas e apresentações culturais. No dia 18 de abril, ocorreu o 4º Encontro dos Povos Indígenas, integrando várias etnias que vivem na Grande São Paulo. No encontro, lideranças Pankararé entregaram uma Carta de reivindicações às autoridades presentes, considerando demandas específicas naquele município como a solicitação de um Espaço de Referência para fazerem suas assembleias e encontros, além da efetivação de um Projeto de Lei que oficializará a Semana dos Povos Indígenas, no calendário do município.

As danças indígenas, o toré, os toantes, os alimentos tradicionais e as diferentes manifestações de apoio às lutas indígenas marcaram o encontro conferindo ânimo renovado aos indígenas. Um fato relevante da Semana foi a presença de indígenas da aldeia Pankararé de Brejo do Burgo, na Bahia. "Para mantermos a nossa cultura temos que nos ajudar uns aos outros", afirmou Maria Vicentina S. Silva que viajou pela primeira vez para ajudar seus parentes na preparação do Encontro.

Um dos momentos marcantes foi a homenagem dos Pankararé à líder Alaíde Xavier Feitosa. "A você nossa imensa gratidão por tantas caminhadas, tanta doação em favor de nosso povo, tantas reuniões e encontros realizados em favor das famílias Pankararé e de outros indígenas, sempre atenta, nos motivando na busca de nossos direitos!", saudou emocionada Erijânia Pankararé.

E, com destaque, ao participar do XVI Encontro Nacional de Direitos Humanos, realizado nos dias 22 a 25 de abril, no Teatro Municipal de Osasco, Alaíde, que é presidente da Associação Pankararé, entregou ao prefeito Emídio de Souza, a Carta de reivindicações dos indígenas do município.
Agora, a comunidade espera que sejam atendidos os seus pedidos quanto ao Espaço de Referência e aprovação do Projeto de Lei, além, da participação efetiva dos representantes do Grupo Intersecretarial que levarão o debate da causa indígena para dentro de seus espaços de trabalho e atuação.

Guarulhos
Em Guarulhos também aconteceram várias atividades, organizadas pela Secretaria de Educação e apoiadas pelo Grupo de Trabalho (GT) Indígena integrado por representantes das etnias que vivem no município, por várias secretarias e pelo Cimi SP. Foram realizados seminários sobre a questão indígena, palestras em escolas, oficinas de contos indígenas, apresentações culturais, venda de artesanato indígena e mostra de documentários indígenas.

No dia 19 de abril, indígenas dos povos Pankararu, Pankararé, Tupi Guarani, Pataxó e Wassu Cocal, integrantes da Associação Arte Nativa, entregaram ao prefeito de Guarulhos, Sebastião Almeida, uma maquete da "Terra Sagrada", espaço específico reivindicado pelas lideranças indígenas para suas manifestações, encontros e atividades culturais.

"Uma cidade que tem por nome Guarulhos, não pode perder suas origens. Vamos nos empenhar para podermos contar outra história", pontuou Almeida. O prefeito também assumiu o compromisso de estudar com as várias áreas do município a reivindicação feita pelos indígenas.

Defensoria Pública
Em consonância com essas ações foi organizado um curso sobre A Questão Indígena, através do Núcleo de Combate a Discriminação, Racismo e Preconceito, da Defensoria Pública do Estado, indígenas da Grande São Paulo, Programa Pindorama da PUC SP, Cimi SP e apoiadores.
O curso conta com palestrantes indígenas, antropólogos e historiadores. Com importante apoio da Defensora Pública, Tatiana Belons Vieira, o primeiro dia de curso, em 23 de abril, iniciou com muitos avanços nas discussões.

Edson Kayapó, doutorando em Educação pela PUC SP, participou da mesa de abertura com a temática Desafios para o estudo da questão indígena na escola. "Prefiro tratar da história de resistência dos nossos povos, melhor do que falar na história de derrota", declarou. Todos esses espaços de debate e divulgação da causa indígena são também cenários importantes para a reflexão da história de resistência e luta desses povos, bem como, a denúncia dos grandes projetos que afetam seu modo de viver, causando destruição e morte.

Sementes de Esperança
Nestes embates todos, vale a semeadura. Acreditamos que a pequenina semente espalhada em território urbano vai germinando frutos preciosos de recuperação identitária e cultural, reconhecimento dos direitos e valorização do diferente cultural. Seguimos na luta para que as sementes espalhadas pelos caminhos possam misteriosamente fazer seu trabalho silencioso de gratuidade e surpresa. Como nos motiva o Subsídio do Cimi para a Semana dos Povos Indígenas, em suas lutas e utopias, os indígenas nos convocam a assumir a defesa do meio ambiente resistindo e reagindo contra o sistema opressor, juntando nossas forças, anseios e esperanças para pensarmos num outro modelo de sociedade. É um sonho que se torna realidade a cada nova conquista desses povos!

* Agentes do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), na Grande São Paulo.

Fonte: Revista Missões

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