Se eu não pregar

José Alberto Moura *

 

Paulo de Tarso nasceu há dois mil anos e foi grande perseguidor dos cristãos. Estava junto do povo que apedrejou Estevão, o primeiro mártir do cristianismo. A caminho de Damasco, onde pretendia aprisionar os seguidores de Jesus, viu a luz cegadora que o fez cair do cavalo, escutando a voz do Senhor que o convidava a mudar de vida. Perseguir os cristãos é perseguir o próprio Cristo! Paulo mudou completamente sua vida, encontrando em Jesus a razão da mesma. Por Ele viveu, enfrentou perseguições, prisões, grandes sacrifícios, a condenação e a morte por degolo.

O destemido Apóstolo era ousado. Não perdia ocasião para anunciar a pessoa e o Evangelho do Divino Mestre. "Ai de mim se eu não pregar o evangelho!" (1 Cor 9, 16). Espalhou para todos os lugares possíveis a Boa Nova da Salvação. O número dos cristãos foi crescendo rapidamente. As pessoas percebiam o quanto era importante assumir a fé no Ressuscitado, não simplesmente por seguirem uma nova religião, mas por encontrarem o sentido vital da mesma no Filho de Deus. Só Ele é capaz de dar ao ser humano a possibilidade de vida eterna feliz com Deus. Ser humano algum, por maior líder que seja ou até mesmo fundando religião, não tem poder de dar a vida eterna com Deus por si mesmo. Ninguém nos provou até hoje a própria divindade se não o próprio Jesus Cristo. Convencido disto, Paulo não se importou com mais nada na vida a não ser amoldar-se a Cristo e anunciá-lo a todos.

Quem realmente assume a fé em Cristo, com sua Igreja, vive-a de modo dinâmico e transformador. Aliás, a fé sobrenatural é um dom de Deus, mas deve ser cultivada pelo ser humano. Jesus deixou, em sua Igreja, meios eficazes para isso. Além de sua Palavra, a oração, especialmente a feita de modo comunitário e litúrgico, os sacramentos, a missão evangelizadora, as vocações diferenciadas e unidas no mútuo apoio e a comunhão fraterna são fatores indispensáveis no sustento da fé. Sozinhos, não podemos fazer muito. Por isso, como verdadeiros discípulos e missionários do Mestre, somos capazes, com sua ajuda, de enfrentar os obstáculos para promovermos a ação evangelizadora em todos os lugares, realidades de vida e ambientes. A ação dos leigos, verdadeiros apóstolos, se dá na vida familiar, profissional, eclesial e social, a ponto de ajudarem a implantar os critérios e valores do Evangelho. Para fazerem frente ao paganismo, materialismo e hedonismo, com as consequentes injustiças e exclusões sociais, ferindo a vida e a dignidade humanas, a proposta transformadora do Filho de Deus faz tudo superar através de homens e mulheres cheios do ardor de Paulo, mesmo nos areópagos da vida. A família, a política, a mídia e a educação apresentam-se como verdadeiros terrenos a serem melhores cultivados com o Evangelho do Reino.

As pessoas de especial consagração na vida religiosa e os sacerdotes têm o grande compromisso de ser presença especialmente animadora de todos para que a pregação do Evangelho seja um ato diuturno por parte de todos, dentro de suas respectivas vocações. Os leigos precisam, mais do que nunca, de formação para a evangelização transformadora para terem condições de viverem sua fé de modo ardoroso e promotor do bem comum.

*Arcebispo de Montes Claros/MG

Fonte: CNBB

 

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