Lembrando Dom Helder Camara

Carlos Chaparro *

Texto de homenagem a um comunicador.

Dom Helder Camara Morreu às 22h20 do dia 27 de Agosto de 1999. Viveu noventa anos. Fisicamente, porém, sempre foi um homem frágil. Quando o conheci, na cidade do Recife, teria ele 55 anos, a fragilidade transparecia no corpo franzino. Magérrimo, sofria de artrites, ou algo parecido, e tomava cortisona para suportar as dores, das quais jamais se queixava. Por causa das dores, pouco dormia de noite.

As fadigas da insônia pareciam tolher-lhe o corpo. Até o olhar, que fulgurava quando falava às platéias, perdia viço sob as pálpebras cansadas, no convívio rotineiro do dia-a-dia. Mas aqueles olhos claros, de tons azulados, sempre se reacendiam quando as conversas envolviam temas e cúmplices da luta guerreira pelo desenvolvimento com justiça social.

Entre os cúmplices que com ele melhor partilhavam idéias e projetos havia vários jornalistas, que sempre foram interlocutores privilegiados. E as conversas mais importantes não aconteciam em torno de mesas, mas em caminhadas pelas estreitas alamedas do pomar do palácio episcopal, para onde dom Helder levava pelo braço os visitantes mais confiáveis, mais estimados ou mais importantes, por causa das informações e idéias que traziam ou podiam levar.

Nas salas do palácio, nas alamedas do pomar ou nos encontros estratégicos, de grupos fechados na casa de alguém, estivesse o bispo de pálpebras caídas, abatido pela fadiga, ou com o olhar aceso que dava vigor às palavras, o que se falava com D. Helder sempre envolvia a luta pela libertação do povo, que na teologia do bispo vermelho dava rosto e identidade ao Cristo.

Que povo?

O Francisco, o João, o José, vítimas da injustiça, da opressão, do desemprego, do analfabetismo, da fome, das endemias. Ameaçados pela desesperança.
Ah! Como dom Helder temia que o povo sofredor perdesse a esperança! Nas convicções que o sustentavam, sem esperança não haveria luta nem motivo para lutar. Por isso pensava e dizia: "Quando sonhamos sozinhos, é só um sonho; quando sonhamos juntos, é o início de uma nova realidade".

Jamais faltou gente ao redor de dom Helder para partilhar sonhos. Que sonhos não eram, mas ações de esperança. E a frase, guardada pela memória do relato jornalístico, faz a definição mais bela, mais precisa, do conceito esperança.
A força multiplicadora dessa esperança iluminava em dom Helder o sorriso quase permanente que contagiava os interlocutores. Da energia fantástica dessa esperança vinha o fogo que lhe incendiava a oratória, nos púlpitos do mundo - e então, para acrescentar sentidos às palavras e aos gestos, brilhavam os olhos claros, translúcidos, que as pálpebras cansadas inutilmente teimavam em esconder.

Quando dom Helder Camara agia no mundo como mestre e lutador da palavra, aquele corpo magro, pequeno e doente, alongava-se pelo gestual ao mesmo tempo imponente e natural. E impunha-se às platéias, tornava-se ferramenta vigorosa a serviço da discursividade magicamente interativa.

Ouvi dom Helder Camara diversas vezes, em homilias, nos altares de pequenas igrejas das periferias pobres do Recife, e em conferências, nos salões e anfiteatros do mundo económico, político, cultural ou acadêmico do Brasil. Vivi até uma experiência inesquecível, quando, com mais dois colegas, o entrevistei num programa de televisão no qual se discutiam as contradições do Nordeste brasileiro. Ele tomou conta do programa, usou genialmente a câmera como janela aberta para o mundo. E nos incluiu na platéia.

Também o conheci na intimidade de reuniões onde se decidiam ações estratégicas em prol do povo nordestino e até em encontros mais abertos, informais, de amigos reunidos em torno de mesas recheadas de petiscos. No convívio informal, ele se parecia com a gente, nas dúvidas, nas inquietações, e, quando era o caso, apreciando bons vinhos e bons queijos em ambientes intelectuais, ou partilhando sabores fortes em confraternizações operárias.

***
O dom Helder que conheci, admirei e estimei era um homem frágil e manso. Precisava dos amigos. Mas foi também um ser humano extraordinariamente forte, poderoso, capaz de aglutinar legiões para as tarefas da justiça social, da solidariedade, da liberdade, da dignificação humana.

Poderoso, sim. Tinha o poder da simplicidade, da pobreza assumida como valor - simplicidade e pobreza simbolizadas na cruz episcopal que usava, de madeira, quase tosca, que algum artesão de mãos calejadas deve ter feito a canivete.

Esse poder, o da simplicidade e da pobreza, servia apenas para o testemunho. O poder que fazia questão de exercer, para intervir no mundo, e com o qual assombrava as elites dominantes, era o poder da palavra, o que significa dizer, o poder das idéias bem proclamadas.

Diante de platéias ou de multidões, foi um comunicador fascinante. Mas só pela difusão do discurso jornalístico sua palavra alcançou o mundo e o perturbo

(Texto extraído do livro Linguagem dos Conflitos, de Manuel Carlos Chaparro – Coimbra, Minerva Coimbra, 2001)

* Carlos Chaparro é doutor em Ciências da Comunicação e professor de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo. É também jornalista, desde 1957.

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