FSM: Pequenas experiências para a sua continuidade

Doroti e Egydio Schwade *

Através da transmissão alegre da Rádio Nacional, acompanhamos o fervilhar do caldeirão da esperança que foi o Fórum Social Mundial de Belém. Vão aqui opiniões e a participação de quem não pôde estar presente neste importante evento, apesar de morar na Amazônia e da vontade de estar aí.

Sempre nos temos preocupado, em especial, pela continuidade dos FSMs após essas grandes Assembléias. A assembléia sempre necessita de muitos recursos financeiros. Não assim a sua continuidade. Esta se baseia principalmente em uma economia não visível de que, cremos, muitos ainda não se deram conta. O que dará força, presença e corpo ao FSM serão as pequenas experiências do dia a dia que não se estruturam sobre a ordem financeira do Estado, mas sobre a mãe-terra. Em nossa vida tivemos oportunidade de participar intensamente de um amplo mutirão de pessoas e de entidades criadoras de experiências que provocaram milagres e ressurgiram povos. Por isso continuamos a acreditar que são principalmente essas pequenas ações, onde os fracos e os pobres humilhados do sistema vigente se transformam em protagonistas que irão acelerar a caminhada para o "outro mundo possível".

Uma das experiências desse mutirão foi a OPAN - Operação Amazônia Nativa, hoje com sede em Cuiabá. Criada em 1969 a OPAN festeja no próximo dia 6 de fevereiro os seus 40 anos de existência. Em 1970 enviou o primeiro grupo de jovens voluntários para uma convivência humilde e fraterna com comunidades indígenas do Noroeste Mato Grosso e de Rondônia, espalhando-se depois por outras partes da Amazônia.

Pela sua postura esses jovens deram início à transformação do modelo de presença de algumas igrejas junto aos povos indígenas brasileiros e provocaram melhorias na política indigenista oficial. A partir desta experiência e de outras semelhantes, como a das Irmãzinhas de Jesus junto ao povo indígena Tapirapé nasceu, em 1972, o CIMI - Conselho Indigenista Missionário, que, por sua vez, desencadeou em meados dos anos 70 as assembléias indígenas, começo das organizações dos povos índios de hoje. Estas, por sua vez, fortaleceram a luta da reconquista da terra e fizeram ressurgir muitos povos das cinzas. Povos indígenas que um programa da Ditadura Militar decidira extinguir em 20 anos. Hoje, enquanto esta ditadura faz parte de um triste passado os índios estão aí em Belém e de norte a sul, presentes com voz dia a dia mais esperançosa para eles e para nós.

É importante ressaltar que as primeiras assembléias indígenas sempre desencadearam ações concretas nas áreas mais criticas, ali onde os irmãos índios mais sofriam como ocorreu, por exemplo, na terceira assembléia indígena que se reuniu, em setembro de 1975, na aldeia Boqueirão no interior da Reserva Indígena Meruri dos índios Bororo/MT.

Os relatos sobre a situação angustiante dos índios Kaingang e Guarani do Sul do Brasil e dos Guarani do MS, fizeram a assembléia tomar a decisão de enviar uma equipe para o MS e outra para o Sul do Brasil.

Esta última, composta de índios Bororo e Xavante, visitou a maioria das áreas do Paraná ao Rio Grande do Sul. Entre as áreas visitadas vale destacar a dos Guarani de Rio das Cobras no Paraná e Nonoai no Rio Grande do Sul. Poucos meses após a visita dos Xavantes e Bororos, os Guarani de Rio das Cobras tomaram a decisão de expulsar os invasores de sua área. E os jornais destacavam no dia seguinte ao inicio da revolta dos Guarani: "300 guerreiros Xavantes prontos para irem a Rio das Cobras".

Dois anos depois chegou a vez dos Kaingang de Nonoai retomarem a sua área. Numa ação firme e fulminante expulsaram em menos de um mês todos os invasores. Estes em sua maioria pequenos agricultores, iludidos por uma Reforma Agrária que nunca acontecia, não tendo agora para onde ir acamparam em Ronda Alta, onde com o auxilio de um padre foram entendendo melhor o seu problema e criaram o MST, solidário, até hoje com a luta dos agricultores e dos índios.

Semelhantemente, ocorreu com outra assembléia indígena, a de Surumu na região da Reserva Raposa Serra do Sol/Roraima, em janeiro de 1977, onde em conseqüência de represálias da Policia Federal e da FUNAI contra aquela assembléia, os povos indígenas da região desencadearam um processo de organização que perdura até hoje e que é responsável pela garantia de seu território contra a forte pressão do agronegócio.

A saúde brasileira também sofreu transformações ou melhorias a partir de uma despretensiosa experiência. No início dos anos 70, Gil e Albinear, um casal de médicos, iniciou em CERES, Diocese de Goiás, com uma equipe de sonhadores com "pé no chão", um novo modelo de hospital, base de discussões e análises do sistema de saúde pública nas comunidades indígenas e pobres. Valorizando os saberes populares nesta área, ajudaram a repensar o atendimento médico e até a iniciar, junto com muitas outras experiências semelhantes uma etnomedicina, mais humana e eficaz que de certa maneira "contagiou" o pensamento e as práticas do sistema de saúde até então vigentes. Criou-se uma brecha no arrogância do sistema médico ocidental baseado na alopatia.

É verdade, eles não foram os únicos protagonistas, mas são um bom exemplo da revolução que se faz quando se dialoga com os saberes populares sem preconceito. E isto acontece quando o senso de justiça está acima do status quo e da segurança do emprego.

Esses e outros inúmeros jovens de ontem, que enfrentaram a Ditadura Militar e de forma original desencadearam processos de esperança para os mais lascados, vivem hoje no anonimato, espalhados de Porto Alegre a Viena, da Bolívia a Madagascar quando não foram assassinados pela causa ou mortos por motivo de doença que contraíram durante o seu trabalho solidário.

A perspectiva do FSM é chamar os pobres e os fracos para serem os principais protagonistas do "outro mundo possível". Só o envolvimento deles com voz e vez é que vai curar as chagas da humanidade. Por detrás dos pobres e oprimidos se movimenta uma economia invisível que é responsável por pelo menos dois terços da sobrevivência da humanidade. Só a confiança, o reconhecimento e a valorização da força desta economia invisível e a sua prática nos levarão ao almejado "outro mundo possível".

Após esse maravilhoso fórum de Belém devemos estar em condições de sair a campo com grupos de pessoas voluntárias para ajudar os povos indígenas de Raposa Serra do Sol na reposição da biodiversidade e despoluição das áreas depredadas pelo agronegócio, de retomar para os Tupininquim do Espírito Santo os 40.000 ha. que a Aracruz-Celulose invadiu e depredou, a colaborar mais vigorosamente com o MST na Reforma Agrária e a organizar uma multidão de voluntários para reconstruir os lares do povo palestino da Faixa de Gaza...

*Casa da Cultura do Urubuí/Amazonas

Fonte: www.adital.com.br

 

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