Catequese, caminho para o discipulado

Jaime Carlos Patias *

Nosso coração arde quando Ele fala, explica as Escrituras e parte o pão (Lc 24, 13-35). "Não estamos falando do tradicional cursinho vestibular para Primeira Eucaristia, Crisma, Batismo ou Matrimônio".

Jaime Carlos Patias *

A 44ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil em 2006 aprovou a realização, em 2009, do Ano Catequético Nacional. A abertura oficial aconteceu no dia 19 de abril, com celebrações especiais em todas as paróquias do Brasil e o seu encerramento será na festa de Cristo Rei, dia 22 de novembro. O objetivo é dar novo impulso à catequese como uma dimensão de toda ação evangelizadora da Igreja para o discipulado. Irmão Israel José Nery, membro do Grupo de Reflexão de Catequese - GRECAT, organismo da CNBB e presidente da Sociedade de Catequetas Latino-Americanos - SCALA, nos dá as coordenadas do Ano Catequético e avalia seu alcance eclesial. É urgente recuperar a concepção da catequese como processo permanente de educação da fé e não somente em vista à preparação aos sacramentos.

Irmão Nery, o que pretende a Igreja com o Ano Catequético Nacional?
Ela pretende "mobilizar-se por inteiro" para assumir e viver a catequese como uma ação eclesial imprescindível para que possa ser e agir conforme o Evangelho, encarnada e libertadora, na realidade do Brasil. Não se trata, portanto de Ano da Catequese, mas de um Ano Catequético. Não é para ficar limitado aos catequistas. A Igreja quer que todas as pastorais, todos os movimentos, todas as congregações, todas as iniciativas dos fiéis, desenvolvam seriamente a dimensão catequética que, aliás, todas possuem pelo simples fato de serem eclesiais. Infelizmente isso ainda não está acontecendo, pois por enquanto está restrito ao pessoal da catequese, que ainda não percebeu o alcance real deste Ano Catequético.

Como a Igreja pretende envolver a todos neste Ano Catequético?
Colocando em prática as orientações do Documento de Aparecida, sobretudo no que se refere à conversão dos católicos, ao discipulado missionário, à iniciação cristã, à catequese permanente, à Igreja de comunhão e participação - como um grande plenário de pequenas comunidades, à luta profética por um mundo justo e solidário e na defesa e promoção da vida. Além disso, ela quer operacionalizar o Diretório Nacional de Catequese - DNC e resgatar a riqueza da Catechesi Tradendae ou seja a Catequese Hoje (de João Paulo II), e da Conferência de Puebla, pois ambas celebram 30 anos em 2009. Para facilitar o processo de mobilização nacional, a CNBB publicou um excelente texto base, que está organizado a partir do relato dos Discípulos de Emaús (Lc 13-35).

Este Ano Catequético poderá contribuir para a renovação da Igreja?
Sim, sem dúvida. Mas é fundamental deixar claro que não estamos falando de catecismo, mas de catequese. E também não estamos falando do tradicional "cursinho vestibular para Primeira Eucaristia" ou "cursinho vestibular para Crisma ou Batismo ou Matrimônio". A proposta da Igreja é outra e bem desafiadora. Trata-se primeiramente de ajudar a pessoa a realizar o seu encontro pessoal com Jesus Cristo vivo, a se converter, dar seu sim a Deus, como pede o Documento de Aparecida. Ora, isso exige uma mudança no modo de compreender e realizar a catequese. Acredito que uma grande contribuição deste Ano Catequético consistirá, portanto, em trazer para a prática as orientações do Documento de Aparecida no capítulo 6, que nos direcionam para a Catequese de Iniciação à Vida Cristã, apoiada na grande riqueza do Catecumenato da Igreja dos séculos III ao V e no Ritual de Iniciação Cristã de Adultos - RICA. E neste processo, a Igreja confirmará algumas prioridades em sua ação evangelizadora e catequética: a conversão do próprio católico, a começar pelos adultos, e nova formação dos presbíteros, catequistas e agentes de pastoral a partir do novo conceito de catequese.

E como vai ficar então a tradicional preparação aos sacramentos?
É um assunto delicado e complicado. Para isso, porém, é preciso de uma vez por todas aceitar que o mundo da cristandade já não existe mais. Estamos num pluralismo cada vez mais amplo. E comprovado está, que um grande número de batizados na Igreja Católica se sente desestruturado face a tantas propostas religiosas e cristãs que se multiplicam dia a dia. Muitos tomam consciência que não são convertidos, ignoram sua fé, não possuem convicções sólidas e são religiosamente infantis.

Percebem que seu cristianismo de tradição não lhes dá o suporte necessário para enfrentar este mundo em mudança. Eles se sentem disponíveis a quem lhes fizer uma oferta de conversão e de compromisso. Em Aparecida, os bispos analisaram essa realidade e concluíram que mais do que continuar sacramentalizando é essencial evangelizar, oferecer oportunidade para conversão, para o encontro pessoal com Jesus Cristo. Como consequência, daí virão, o engajamento na Igreja, a frequência aos sacramentos, a opção vocacional, o compromisso com a construção do Reino de Deus.

A Iniciação à vida cristã, que tem outro ritmo e outra metodologia que a preparação aos sacramentos, contemplará no devido tempo a vida sacramental, mas como parte de um processo catequético, litúrgico e comunitário que, de fato, possibilite ao fiel se converter e se comprometer com o Senhor, a Igreja e o Reino. É preciso, aqui, ler DA 294.

Este ano promete, então, ser revolucionário, no bom sentido da palavra?
É isso mesmo. Mas precisamos ter os pés no chão ao mesmo tempo que os olhos e o coração fixos no horizonte como se víssemos o invisível. A nossa Igreja ainda tem o peso da rotina pastoral, da formalidade nas orações e celebrações, da frieza intelectual no estudo da Bíblia e da Teologia; o peso de uma estrutura de manutenção do seu status quo que lhe dificulta muito ver que ela está ficando para trás na história. E como, na Igreja, a hierarquia comanda tudo, urge que bispos e padres, seminaristas, diáconos (e lideranças cristãs) decidam de vez por um modelo de Igreja de conversão, de comunhão e participação, de escuta e misericórdia, de discipulado missionário, de serviço e profetismo. Só assim os leigos e leigas (98% dos católicos) terão vez e voz. Basta analisar a realidade do Brasil para comprovar que, apesar de ser o maior país cristão do mundo, os cristãos, por não serem em sua grande maioria convertidos, pouco significam para reais e necessárias mudanças na sociedade brasileira. O Ano Catequético visa, sim a renovar a Igreja como um todo.

Como está organizado este Ano Catequético?
Temos à disposição o excelente texto base (Ed. CNBB) que desenvolve o tema: "Catequese: caminho para o discipulado" e o lema: "Nosso coração arde enquanto ele fala, explica as escrituras e parte o pão" (cf. Lc 24, 13-35). Há ainda vários subsídios como o CD de Hinos e Canções (Ed. Paulinas), o cartaz, spots, releases, artigos e entrevistas para rádio, TV, revistas, jornais. E um dos momentos altos de 2009 será a Terceira Semana Brasileira de Catequese, de 6 a 10 de outubro, em Itaici, Indaiatuba, SP, precedida por várias realizações nos regionais, nas dioceses e nas paróquias.

Irmão Nery
Natural de Machado, MG, Irmão Israel José Nery pertence ao Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs (Irmãos Lassalistas), fundado, em 1680, na França, pelo Padroeiro dos Professores, São João Batista de La Salle (1651-1719). Além de trabalhos em sua Província Religiosa, Ir. Nery é escritor com 53 livros publicados. É também autor de vários CDs de canções e DVDs (Ed. Paulinas).

O que é o GRECAT?
Grupo de Reflexão Catequética, criado em 1984 para ajudar na operacionalização do documento Catequese Renovada. O Grupo acompanha a reflexão e sistematização da catequese. É responsável pela produção de textos, animando a caminhada catequética. É formado por catequetas: religiosas/os, leigas/os e presbíteros, que se reúnem duas vezes ao ano.
A 3ª Semana Nacional de Catequese que ocorrerá em Itaici, Indaiatuba, SP, nos dias 6 a 11 de outubro contará com palestras como as do cardeal dom Cláudio Hummes, frei Carlos Mesters e do biblista Francisco Ourofino.

* Jaime Carlos Patias, imc, diretor da revista Missões e mestre em Comunicação, com a colaboração de Rosa Clara Franzoi.

Publicado na edição Nº04 - Maio 2009 - Revista Missões. www.revistamissoes.org.br

 

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